Uma nova análise feita no País de Gales está a chamar a atenção da comunidade científica: pessoas vacinadas contra a zona em idades mais avançadas desenvolveram demência com muito menos frequência. Os investigadores falam numa redução do risco em cerca de metade. Mas como pode uma vacina destinada a prevenir um exantema cutâneo ter impacto na protecção do cérebro - e o que significa isto, na prática, para o dia a dia na Alemanha, Áustria e Suíça?
O que o estudo mostrou ao certo
No centro do trabalho está a vacinação contra a zona, também conhecida como herpes zoster. Para este fim, é usado sobretudo o Shingrix, uma vacina que também é recomendada em vários países europeus para pessoas mais velhas. A coorte avaliada no País de Gales incluiu pouco mais de 296.000 pessoas com 71 anos ou mais.
"Entre os vacinados, o risco de desenvolver demência foi cerca de 51% mais baixo do que entre os não vacinados."
A análise foi publicada na revista científica “Nature Communications” e junta-se a outros estudos que já tinham sugerido um possível efeito protector da vacinação contra a zona no cérebro. Um ponto importante: não se tratou apenas de esquecimento inespecífico, mas de formas reais de demência - em especial a doença de Alzheimer, a variante mais comum, responsável por cerca de 60 a 80% dos casos.
Quem poderá beneficiar da vacinação
Os dados dizem respeito a pessoas mais velhas, na maioria com mais de 70 anos. Em muitos países, a vacina contra a zona é recomendada a partir dos 60 anos e, em determinados grupos de risco, pode ser indicada mais cedo. Entre os principais grupos-alvo contam-se:
- Pessoas com 60 anos ou mais sem doenças graves prévias
- Pessoas com o sistema imunitário enfraquecido (por exemplo, devido a medicação)
- Doentes com doenças crónicas como esclerose múltipla que recebem terapêuticas imunomoduladoras
Para estes grupos, o Shingrix já é relevante por ajudar a evitar episódios dolorosos de zona e sequelas como dor neuropática persistente. Se, além disso, existir um efeito protector face à demência, será um benefício adicional - não o único motivo para vacinar, mas mais um argumento forte.
O que é, afinal, a zona?
A zona é causada pelo vírus varicela-zóster (VZV), o mesmo agente que provoca varicela na infância. Depois de uma infecção por varicela, o vírus permanece “adormecido” no sistema nervoso e pode reactivar-se décadas mais tarde.
Características típicas da zona:
- Exantema doloroso, muitas vezes em faixa no tronco
- Vesículas avermelhadas que, mais tarde, formam crostas
- Dor em ardor de origem nervosa, que pode persistir durante muito tempo
- Quando afecta a face, pode representar risco para os olhos e para a audição
As pessoas mais idosas são particularmente afectadas. Em França, estimam-se 5 a 10 casos por 1.000 pessoas com mais de 60 anos por ano - valores de ordem semelhante são apontados também para a Alemanha, Áustria e Suíça.
Porque a vacina contra a zona poderá proteger o cérebro
A questão mais interessante é perceber de onde vem a associação entre a vacinação contra a zona e a demência. O estudo descreve uma observação clara, mas apenas oferece hipóteses para a explicação. Muitos neurologistas apontam para o papel da inflamação no sistema nervoso.
"Inflamações persistentes no cérebro são consideradas um possível motor para a doença de Alzheimer e outras demências - e as infecções podem alimentar esse fogo."
Numa reactivação do VZV, não há apenas um exantema cutâneo. O sistema imunitário entra em alerta e isso pode também envolver o sistema nervoso central. Um papel central é atribuído à microglia, as “células de defesa” do cérebro. Se permanecerem activadas por períodos prolongados, podem contribuir para dano neuronal.
A lógica por detrás da vacinação é a seguinte: ao reduzir a probabilidade de reactivações da zona, poderá diminuir-se também o número de “episódios” inflamatórios no sistema nervoso. A longo prazo, isso poderia ajudar a limitar processos que levam à deterioração de estruturas cerebrais.
Paralelos com outras vacinas
Efeitos semelhantes são discutidos também para outras vacinas, como a da gripe ou a dos pneumococos (pneumonia). Alguns estudos sugerem que infecções repetidas na idade avançada podem aumentar o risco de demência, enquanto a protecção por vacinação pode atenuar esse risco. A questão ainda não está totalmente esclarecida, mas a evidência tem vindo a acumular-se.
A vacina chega - ou o estilo de vida é o principal?
Embora o número de 51% seja impressionante, especialistas pedem cautela. A vacinação contra a zona pode ser um componente na prevenção da demência, mas não substitui medidas já bem estabelecidas, como actividade física, alimentação e controlo da tensão arterial.
"Quem quer manter-se em forma deve começar por implementar o que está consolidado há anos - a vacina pode complementar, não substituir."
A Organização Mundial da Saúde (OMS/WHO) recomenda, para reduzir o risco de demência no quotidiano, entre outras medidas:
- Actividade física regular, idealmente várias vezes por semana
- Alimentação equilibrada com muitos vegetais, fruta e cereais integrais, e poucos ultraprocessados
- Não fumar e consumir o mínimo possível de álcool
- Bom controlo de hipertensão, diabetes e lípidos elevados
- Sono suficiente e regular
- Estimulação cognitiva e manutenção de contactos sociais
Neurologistas sublinham que, se estes pontos fossem aplicados de forma consistente pela população, uma parte considerável dos casos de demência poderia ser evitada ou, pelo menos, adiada. Neste contexto, a vacinação contra a zona surgiria como mais uma medida relativamente simples, acrescentada ao conjunto.
A dimensão actual do problema da demência no mundo
De acordo com os investigadores que apresentaram este estudo, em 2019 existiam cerca de 57,4 milhões de pessoas com diagnóstico de demência. E a tendência é de crescimento, impulsionada pelo aumento da população mundial e pela subida da proporção de pessoas idosas.
| Ano | Pessoas com demência no mundo (estimativa) |
|---|---|
| 2019 | ca. 57,4 milhões |
| 2050 (projecção) | bem mais de 100 milhões |
Para famílias, lares e sistemas de saúde, isto traduz-se em enorme pressão - financeira, organizacional e emocional. Por isso, qualquer medida que reduza o risco individual, mesmo que apenas parcialmente, ganha relevância.
O que as pessoas podem fazer já, de forma prática
Quem tem mais de 60 anos ou vive com doenças crónicas pode abordar o tema da vacinação contra a zona na próxima consulta de medicina geral e familiar. Aí é possível esclarecer, por exemplo:
- Faço parte de um grupo para o qual o Shingrix é recomendado?
- Que doenças prévias ou medicamentos devem ser considerados?
- Que nível de protecção tenho, em geral, contra infecções (gripe, pneumococos)?
- Que factores de estilo de vida consigo melhorar no curto prazo?
Um ponto essencial: a prevenção da demência não começa aos 70 anos. Quem, já nos 40 e 50 anos, cuida da tensão arterial, do peso, da actividade física e do stress, cria uma base importante para manter maior estabilidade cognitiva no futuro. A vacina contra a zona tende a ganhar especial relevância quando o sistema imunitário começa a enfraquecer e o risco de infecções aumenta.
Riscos e efeitos secundários a ter em conta
Tal como acontece com qualquer vacina, a vacina contra a zona pode causar efeitos secundários. Os mais frequentes incluem:
- Dor no local da injecção
- Ligeira fadiga
- Dor de cabeça ou dores musculares
- Ocasionalmente, febre ou arrepios
Reacções graves são raras, mas devem ser levadas a sério e avaliadas de imediato por um profissional de saúde. Em pessoas com o sistema imunitário muito comprometido, é necessária uma ponderação cuidadosa, feita caso a caso em consulta ou em ambiente hospitalar.
O que o estudo não responde - e porque ainda assim importa
Continua por esclarecer se a vacina protege directamente o cérebro ou se as pessoas vacinadas, em média, têm um estilo de vida mais saudável e, por isso, adoecem menos de demência. Estudos observacionais nunca conseguem eliminar totalmente este tipo de diferenças. Ainda assim, o resultado ajuda a reforçar um caminho potencialmente relevante: a prevenção de infecções como parte de um pacote mais amplo contra o declínio cognitivo.
No dia a dia, isto significa que a vacinação contra a zona serve, antes de mais, para evitar dor neuropática intensa e complicações. A possível protecção adicional face à demência é um sinal positivo - sobretudo numa altura em que muitas pessoas sentem que a demência é inevitável. Afinal, esse trajecto pode não estar tão determinado quanto parece.
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