Depois dos 40, é comum começar a reparar em pernas mais "inchadas", cintura com mais volume e pele menos firme, mesmo quando o número na balança quase não se altera.
Estas mudanças não são apenas uma questão estética. Normalmente acompanham alterações na massa muscular, na circulação e no equilíbrio hormonal, com impacto na saúde, no conforto diário e na confiança. O treino de força continua a ser fundamental, mas vários especialistas têm vindo a dar destaque a uma ferramenta mais recente que, em poucas semanas, pode ajudar o corpo a sentir-se mais leve e com menos retenção.
Porque é que o corpo fica mais “inchado” depois dos 40
A partir da quarta década de vida, o organismo vai ajustando, pouco a pouco, as suas prioridades internas. A massa muscular tende a diminuir, a distribuição de gordura altera-se e os tecidos conjuntivos perdem elasticidade.
Quando estes factores se juntam, torna-se mais provável sentir retenção de líquidos e uma sensação de peso e congestão nas pernas e no abdómen. Muitas pessoas descrevem isto simplesmente como “estar inchado” ou “inflado”, sobretudo ao final do dia.
- A diminuição de massa magra abranda o gasto calórico e pode prejudicar a circulação.
- A produção de colagénio reduz-se, afectando a firmeza da pele e o suporte dos tecidos.
- As alterações hormonais influenciam a forma como o corpo armazena gordura e retém água.
- Passar mais horas sentado reduz o efeito de “bomba” muscular que ajuda o fluxo do sangue e da linfa.
Manter actividade física regular ajuda a contrariar estes processos. Ainda assim, para muitas pessoas com mais de 40 anos, sessões longas no ginásio são difíceis de encaixar numa agenda já cheia. É aqui que um método mais rápido e orientado pela tecnologia tem vindo a ganhar atenção.
O método em que os especialistas estão a apostar: treino EMS
A par do treino de força clássico, médicos do desporto e fisiologistas têm recomendado o treino com estimulação eléctrica muscular, muitas vezes abreviado para EMS ou NMES. À primeira vista, parece saído de um filme de ficção científica: um colete, bandas e cabos que enviam pequenos impulsos eléctricos enquanto se fazem movimentos simples, como agachamentos, remadas ou passadas.
Estes impulsos provocam contracções musculares ao mesmo tempo que a pessoa faz o esforço voluntário. O resultado é um treino de corpo inteiro bastante intenso num período curto.
“As sessões de EMS costumam durar cerca de 20 minutos, mas podem estimular até 350 músculos ao mesmo tempo, segundo centros especializados.”
A estimulação eléctrica começou por ser utilizada em contexto hospitalar e em clínicas de fisioterapia, sobretudo na reabilitação após lesões ou cirurgias. Na última década, a tecnologia passou para ginásios de gama alta e estúdios de EMS, incluindo no Brasil, onde a tendência chegou da Alemanha em 2017 e cresceu rapidamente.
O que diz a ciência sobre EMS e ganho de músculo
O EMS não é apenas uma moda das redes sociais. Uma metanálise recente publicada na Revista Europeia de Fisiologia Aplicada comparou o treino de resistência tradicional com e sem estimulação eléctrica neuromuscular.
A revisão concluiu que juntar EMS a exercícios de força esteve associado a maiores ganhos de força muscular e de massa muscular do que o treino convencional por si só. A corrente eléctrica parece recrutar fibras adicionais, sobretudo mais profundas, que nem sempre são activadas com facilidade apenas com o movimento.
“Os estudos indicam que o EMS, quando acrescentado ao treino de resistência, pode potenciar resultados, especialmente em força e volume muscular, quando usado sob supervisão profissional.”
Em pessoas com mais de 40 anos, esta activação extra pode ser relevante: mais músculo significa melhor suporte articular, postura mais estável e um efeito de “bomba” mais eficaz na circulação sanguínea e linfática, o que pode atenuar a sensação de inchaço.
Como o EMS pode ajudar o corpo a “desinchar”
O interesse do EMS para quem lida com inchaço e retenção de líquidos não tem nada de mágico; é fisiologia. Quando muitos músculos contraem de forma rítmica, comprimem veias e vasos linfáticos, ajudando os líquidos a regressar em direcção ao coração e a atravessar os gânglios linfáticos.
Este mecanismo contribui para:
- Menor acumulação de líquido nos tornozelos e nas pernas.
- Menos sensação de peso nos membros.
- Melhor oxigenação dos tecidos.
- Um ligeiro aumento do metabolismo após a sessão.
É frequente as pessoas referirem uma sensação de corpo mais leve e “mais firme” depois de um ciclo de sessões. Parte pode estar ligada a menor retenção de água e parte a um ganho inicial de tónus muscular, que melhora a forma como o corpo se sustenta.
Porque é que o EMS não substitui o treino com pesos
Apesar das vantagens, os especialistas são claros: o EMS é um complemento, não um substituto do treino de força convencional em adultos saudáveis.
A corrente eléctrica deve manter-se dentro de limites confortáveis. Como os nervos sensoriais reagem quando a intensidade sobe demasiado, a contracção efectivamente alcançada com EMS costuma situar-se entre cerca de 10% e 60% da força máxima voluntária de cada pessoa.
“Para força robusta a longo prazo e saúde óssea, o treino de resistência tradicional continua a ser a base, com o EMS a funcionar como estímulo extra.”
Pesos livres, máquinas e exercícios com o peso do corpo continuam a ser a forma mais controlada de aumentar progressivamente a carga em músculos e ossos - algo essencial para ajudar a prevenir osteoporose e fragilidade nas décadas seguintes.
Como é, na prática, uma sessão de EMS
Para quem tem curiosidade, mas se sente intimidado pelos cabos e aparelhos, a sessão de EMS é mais estruturada do que parece em vídeos no TikTok.
| Fase | O que acontece |
|---|---|
| Avaliação | O treinador revê histórico de saúde, objectivos e possíveis contra-indicações, como pacemakers ou gravidez. |
| Equipar-se | Veste-se um colete humedecido e colocam-se bandas com eléctrodos integrados nas pernas, braços, glúteos e zona abdominal. |
| Calibração | Ajusta-se a intensidade até sentir contracções fortes, mas toleráveis, sem dor. |
| Treino | Fazem-se movimentos orientados - agachamentos, remadas, movimentos de empurrar - enquanto os impulsos contraem os músculos de forma rítmica. |
| Retorno à calma | A intensidade desce e, por vezes, seguem-se alongamentos suaves ou exercícios de respiração. |
Mesmo para quem já treina, pode ser surpreendentemente exigente, porque muitos grupos musculares activam ao mesmo tempo. Ainda assim, o compromisso de tempo costuma ser de cerca de 20 minutos, geralmente uma a duas vezes por semana.
Quem tende a beneficiar mais do EMS depois dos 40
O EMS pode adequar-se a perfis diferentes, sobretudo a pessoas que:
- Têm pouco tempo para treinos longos, mas querem um estímulo de força.
- Sentem desconforto articular com cargas elevadas e precisam de alternativas de menor impacto.
- Estão a retomar exercício após uma pausa prolongada e necessitam de recondicionamento gradual.
- Querem introduzir variedade e um desafio novo numa rotina já existente.
Em alguns casos, o EMS é especialmente útil para quem tem dificuldade em recrutar determinados grupos musculares, como glúteos ou músculos abdominais profundos, porque a corrente eléctrica funciona como um “alerta” adicional.
Riscos, limites e quando evitar o EMS
Como qualquer ferramenta, o EMS tem limitações. Pessoas com pacemakers, problemas graves de ritmo cardíaco, epilepsia não controlada, alguns tipos de implantes metálicos ou infecções cutâneas activas devem evitar o método, a menos que tenham autorização médica.
O excesso é outro ponto crítico. Como o EMS consegue provocar contracções fortes, demasiadas sessões de alta intensidade sem recuperação aumentam o risco de dores musculares, fadiga excessiva ou, em casos raros, lesão muscular.
“Os especialistas recomendam, em geral, o EMS como um extra uma ou duas vezes por semana, e não como um atalho diário que substitui todo o movimento.”
A qualidade da supervisão também conta. As sessões devem ser acompanhadas por profissionais com formação para ajustar intensidades, corrigir a técnica e observar a resposta do corpo.
Como combinar: EMS mais treino de força clássico
Para muitas pessoas depois dos 40, a estratégia mais eficaz passa pela combinação. O treino de força tradicional, mesmo duas vezes por semana, fornece a carga mecânica de que ossos e músculos precisam. O EMS acrescenta uma camada extra de estímulo, ajudando a combater a circulação mais lenta e o inchaço subtil.
Um esquema semanal simples pode ser assim:
- Dois dias de treino de força padrão (máquinas, pesos livres, bandas elásticas).
- Uma sessão de EMS com foco na activação do corpo inteiro.
- Movimento regular de baixa intensidade - caminhar, pedalar, nadar - para apoiar a circulação nos restantes dias.
Este tipo de rotina favorece não só uma sensação mais “leve” e menos “inflada”, como também melhor equilíbrio, estabilidade articular e mais energia ao longo da semana.
Termos-chave que vale a pena conhecer
Duas ideias aparecem frequentemente nas conversas sobre EMS e envelhecimento: massa magra e retenção de líquidos.
Massa magra refere-se sobretudo ao músculo, mas inclui também órgãos e osso. A partir de cerca dos 30 anos, o corpo pode perder vários por cento de músculo por década se não houver treino de força. Essa perda abranda o metabolismo e facilita o aumento de gordura e de peso associado a água.
A retenção de líquidos envolve um desequilíbrio entre o líquido que sai dos vasos sanguíneos e o que regressa através das veias e do sistema linfático. Os músculos funcionam como bombas desses sistemas. Quando estão mais fortes e mais activos - com pesos, EMS ou ambos - o excesso de líquido encontra um caminho mais eficiente de volta à circulação, em vez de se acumular em torno de tornozelos, coxas e abdómen.
Para alguém no final dos 40 anos que passa muitos dias sentado a trabalhar, acrescentar EMS a uma base de treino de força e caminhadas pode traduzir-se em calças que apertam menos ao final do dia, pernas com menos sensação de latejar e um corpo que se sente mais sustentado “por dentro”. O método não é uma solução milagrosa, mas, quando usado com critério, pode ser um aliado valioso para manter o corpo mais firme, móvel e menos inchado muito para lá da meia-idade.
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