Os suplementos nutricionais estão a ganhar uma popularidade enorme, mas alguns especialistas continuam céticos em relação às várias alegações de saúde associadas a estas cápsulas e à sua segurança quando usadas em doses elevadas.
Muitos adultos mais velhos recorrem ao ómega-3 para tentar preservar a função cognitiva. No entanto, um novo estudo de investigadores na China indica que, em pessoas com fatores genéticos de risco para a doença de Alzheimer, estas cápsulas orais podem estar associadas ao efeito oposto.
Os autores sublinham que a investigação é apenas observacional e foi realizada sobretudo com adultos mais velhos, brancos e com maior nível de escolaridade, pelo que os resultados devem ser interpretados com prudência.
Os dados não provam que os suplementos de ómega-3 causem um agravamento acelerado do declínio cerebral neste grupo específico, mas sugerem que ainda há muito a compreender sobre os benefícios e os inconvenientes deste tipo de suplementação.
"Estas descobertas desafiam a visão predominante de que o ómega-3 é uniformemente benéfico e salientam a necessidade de uma reavaliação cautelosa do seu uso generalizado para proteção cognitiva", escrevem os autores, liderados por investigadores da Army Medical University, na China.
"Do ponto de vista clínico e de saúde pública, os nossos resultados sugerem que é necessária uma avaliação mais matizada e mais investigação."
Ómega-3, envelhecimento e proteção cognitiva: o que se sabia
Há numerosos estudos observacionais a sugerir que os ácidos gordos ómega-3 podem proteger o cérebro e abrandar o declínio cognitivo, mas ensaios mais rigorosos têm produzido resultados inconsistentes.
Consumir uma determinada quantidade de gorduras insaturadas parece favorecer a saúde global, mas cada organismo reage de forma diferente. Por isso, permanece controverso se tomar suplementos adicionais de ómega-3 protege efetivamente a função cerebral ou se abranda a demência de forma generalizada.
Além disso, muitos ensaios clínicos aleatorizados e controlados não conseguiram demonstrar que a suplementação com ácidos gordos ómega-3 traga benefícios no declínio cognitivo em doentes com Alzheimer.
O que o estudo com dados da ADNI observou
O estudo agora divulgado analisou informação de saúde da Alzheimer's Disease Neuroimaging Initiative (ADNI). Entre mais de 800 participantes - cerca de metade com um fator genético de risco para demência, conhecido como APOE ε4 - aqueles que tomavam suplementos de ómega-3 apresentaram um declínio cognitivo mais rápido do que os que não tomavam.
No conjunto da ADNI, os participantes que usavam ómega-3 tiveram uma queda mais acentuada nas pontuações do Mini-Mental State Examination (MMSE), teste utilizado para avaliar memória, atenção e competências linguísticas.
Em paralelo, as pontuações noutros testes concebidos para medir declínio cognitivo também aumentaram mais rapidamente.
De forma curiosa, estes resultados não pareciam depender dos biomarcadores centrais da doença de Alzheimer no cérebro, como placas ou emaranhados. O declínio cognitivo nem sequer foi associado a perda de substância cinzenta.
Em vez disso, a explicação mais consistente para a deterioração foi encontrada em alterações na função sináptica neuronal.
"Os nossos resultados sugerem uma possibilidade anteriormente pouco reconhecida: a suplementação com ómega-3 pode, em alguns contextos, afetar negativamente a integridade sináptica, acabando por contrariar os seus benefícios de curto prazo", explicam os autores.
"Esta perspetiva exige uma compreensão mais matizada do papel do ómega-3 no cérebro humano em envelhecimento - para lá de um enquadramento simplista de protetor-versus-ineficaz."
Dose, equilíbrio e potenciais efeitos adversos
A equipa considera provável que exista um “ponto ideal” para obter benefícios do ómega-3 e que a suplementação tenha de manter um "equilíbrio delicado" entre os aspetos positivos e os negativos.
Em excesso, mesmo algo considerado benéfico pode tornar-se potencialmente prejudicial - por exemplo, aumentando a oxidação no cérebro ou, de alguma forma, alimentando uma doença subjacente.
Muitas vezes, quando os níveis de ómega-3 são baixos, especialistas sugerem que os doentes aumentem o consumo de alimentos integrais naturalmente ricos em ómega-3, uma vez que estes podem trazer outras vantagens. Desta forma, também é mais difícil consumir quantidades excessivas.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 concluiu que suplementos de ómega-3 em baixa dose estão associados a benefícios cognitivos, mas que doses elevadas acima de 1.500 mg por dia podem inverter essa vantagem em alguns doentes.
No final, a mensagem é inequívoca: é necessária mais investigação antes de os suplementos de ómega-3 serem recomendados para a saúde do cérebro.
"São necessários estudos futuros para esclarecer as dinâmicas dependentes da dose, do contexto e do tempo subjacentes aos potenciais benefícios e danos da suplementação com ómega-3", concluem os autores.
O estudo foi publicado no The Journal of Prevention of Alzheimer's Disease.
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