Um artigo científico polémico que afirmava que o herbicida glifosato (nome comercial Roundup) «não representa um risco para a saúde humana» foi formalmente retractado, 25 anos após a publicação, devido a graves preocupações éticas relacionadas com possível manipulação por parte da indústria.
O estudo - agora retirado - concluía que não existiam provas de que o Roundup provocasse cancro, interferisse com o sistema endócrino ou fosse tóxico para seres humanos. Tornou-se também um dos trabalhos mais citados na literatura científica sobre glifosato.
O texto tinha sido publicado em 2000 na revista Regulatory Toxicology and Pharmacology, com autoria de Gary Williams, Robert Kroes e Ian Munro. A reversão formal destas conclusões volta a colocar sob escrutínio a segurança do Roundup.
Razões da retração e dúvidas sobre a integridade académica
Numa nota de retração divulgada em novembro de 2025, o coeditor-chefe da revista, Martin van den Berg, explica que «a retração baseia-se em várias questões críticas que se considera comprometerem a integridade académica deste artigo e as suas conclusões». Segundo o responsável, ao tentar contactar Williams - o único autor ainda vivo - não obteve qualquer resposta.
Van den Berg escreve ainda que «este artigo tem sido amplamente visto como um trabalho de referência no debate em torno da carcinogenicidade do glifosato e do Roundup». No entanto, acrescenta: «a falta de clareza sobre quais partes do artigo foram escritas por colaboradores da Monsanto cria incerteza quanto à integridade das conclusões retiradas».
Entre as «questões críticas» apontadas está o facto de as avaliações sobre a contribuição do químico para o cancro e para a toxicidade genética se apoiarem exclusivamente em estudos não publicados da Monsanto, deixando de fora muitos outros estudos de longo prazo que já estavam concluídos quando a revisão foi redigida.
Na mesma nota, van den Berg afirma que a falta de independência na autoria «levanta sérias preocupações éticas quanto à independência e à responsabilização dos autores neste artigo», referindo também a ausência de divulgação da participação de colaboradores da Monsanto e eventuais compensações financeiras que os autores possam ter recebido da empresa.
O papel da Monsanto e a ligação ao caso judicial de 2017
A decisão surge oito anos depois de um processo judicial, em 2017, ter concluído que colaboradores da empresa química Monsanto estiveram envolvidos em escrita fantasma na avaliação de segurança do herbicida.
A Monsanto lançou o Roundup em 1974, e o herbicida viria a ser adquirido pela Bayer em 2018. A Bayer continua a defender que o produto é seguro quando utilizado de acordo com as instruções.
Glifosato, culturas “Roundup Ready” e o impacto do artigo retractado
O glifosato é um dos herbicidas mais utilizados no mundo, comprado tanto por agricultores em escala industrial como por jardineiros domésticos, com o objectivo de eliminar ervas indesejadas.
No sector agrícola, a substância foi comercializada em conjunto com culturas “Roundup Ready” - plantas geneticamente modificadas para resistirem ao efeito do glifosato. Actualmente, este grupo inclui soja, milho, colza, beterraba sacarina, algodão e alfafa.
Essa modificação genética permite aos agricultores pulverizar glifosato de forma abundante sobre os campos, eliminando as plantas sem resistência incorporada e mantendo as culturas intactas.
Ao mesmo tempo, têm aumentado as preocupações sobre os efeitos do químico na saúde humana, para além dos impactos de grande alcance noutros componentes dos ecossistemas naturais e humanos.
A cientista de Harvard Naomi Oreskes verificou que o artigo agora retractado é citado em mais de 800 trabalhos académicos, em dezenas de documentos governamentais e em vários artigos da Wikipédia - que, como sublinha, é uma das fontes em que muitos modelos de linguagem de grande escala passam a apoiar-se.
Em 2015, a Agência Internacional para a Investigação do Cancro, da Organização Mundial da Saúde, concluiu que o glifosato era um provável carcinogénio, baseando-se sobretudo em estudos com animais, embora outras agências e organizações de saúde discordem.
Será necessária investigação rigorosa e verdadeiramente independente para apurar se o glifosato representa um risco real para seres humanos.
Até agora, a Bayer pagou 10 mil milhões de dólares em processos relacionados com a potencial carcinogenicidade do Roundup que estavam pendentes em 2020, e há ainda mais de 67 000 casos por resolver.
A nota de retração e o artigo original foram publicados na Regulatory Toxicology and Pharmacology. A análise do impacto do artigo retractado foi publicada na Science.
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