Nos ensaios clínicos que avaliam tratamentos para a depressão, quase sempre se quantifica o que diminui e deixa de se agravar.
O acompanhamento centra-se em sinais como menos choro, menos desesperança e menos medo antecipatório. Em geral, os indicadores são pensados como uma conta de subtracção. Já a possibilidade de uma pessoa voltar a sentir-se bem raramente entra no foco principal dos resultados.
Um ensaio recente veio pôr estas premissas em causa de forma directa. Em vez de se limitar a reduzir o mal-estar, uma equipa de investigação desenhou uma terapia para activar a capacidade de sentir alegria.
Quando comparada com a abordagem padrão, esta terapia centrada na alegria mostrou-se claramente mais eficaz.
Estudar a terapia PAT
A intervenção chama-se positive affect treatment, ou PAT. O seu alvo é a anedonia, isto é, a perda da capacidade de sentir prazer ou interesse em actividades que antes eram agradáveis.
A anedonia aparece na maioria dos quadros de depressão e também em muitos transtornos de ansiedade.
É, além disso, o sintoma mais fortemente associado a recaídas e a pensamentos suicidas, e os cuidados habituais muitas vezes não lhe tocam.
O ensaio foi liderado pela Dra. Alicia Meuret, da Southern Methodist University (SMU), em Dallas. Segundo a investigadora, grande parte das terapias para a depressão persegue apenas a face negativa do problema, observando sobretudo o medo, a desesperança e os pensamentos acelerados.
Assim, os doentes acabam por esperar que a alegria e a felicidade regressem por si mesmas quando a dor abranda - mas, para muitos, isso não acontece de forma real.
Compreender a terapia PAT
A PAT ensina competências direccionadas ao sistema de recompensa do cérebro - os circuitos que se activam quando alguém antecipa algo positivo.
Na depressão, esse sistema tende a ficar silencioso e adormecido, como se recuasse.
Os pacientes treinam a planear pequenas actividades agradáveis e a saboreá-las com detalhe vívido. Também praticam a evocação mental de cenas positivas e actos deliberados de generosidade.
Um exercício frequente era feito durante um jantar com amigos. Pedia-se aos participantes que reparassem no sabor da comida, no som de uma gargalhada e no calor de se sentirem incluídos.
A meta não é que tudo seja prazeroso, nem criar grandes demonstrações de felicidade. A aprendizagem inclui, igualmente, procurar em experiências comuns pequenos detalhes positivos - e atribuir a si próprios o mérito por os reconhecerem.
Duas regiões diferentes
O estudo recrutou 98 adultos em Dallas e em Los Angeles. Todos apresentavam diferentes níveis de depressão ou ansiedade, de moderada a grave.
Metade foi atribuída aleatoriamente à PAT. A outra metade recebeu negative affect treatment, ou NAT.
A NAT baseia-se em enfrentar situações temidas, contestar pensamentos distorcidos e fazer exercícios respiratórios para baixar a tensão.
Ambas as terapias decorreram em 15 sessões semanais por vídeo. Terapeutas e pacientes só souberam a que grupo pertenciam na primeira sessão. Os sintomas foram avaliados em todas as sessões, no final do tratamento e ao longo do mês seguinte.
Dados vindos da clínica
A PAT destacou-se de forma consistente. No fim do programa, as pessoas em PAT tinham melhorado mais, numa medida combinada de depressão, ansiedade e alegria, do que as pessoas em NAT.
A vantagem manteve-se mesmo um mês após o término do tratamento. De forma marcante, a maior diferença surgiu na escala de depressão e ansiedade - precisamente o alvo específico da NAT.
Os investigadores já suspeitavam que a circuitaria de recompensa era um ponto de intervenção útil, e os resultados indicaram que uma terapia organizada em torno da alegria foi muito mais eficaz.
Reconfigurar o sistema de recompensa
A Dra. Michelle Craske, da University of California, Los Angeles (UCLA), co-investigadora do projecto, defende que há algo de natureza neurobiológica a ocorrer “por baixo do capô”.
Segundo Craske, quem conclui a PAT parece reagir com mais intensidade a pistas positivas. Trabalhos anteriores relacionados sugerem que regiões cerebrais ligadas à antecipação e ao prazer podem estar a ser recalibradas.
Ainda assim, o que se passa exactamente ao nível neural permanece incerto, por agora.
Em seis de sete medidas de auto-relato, a mudança acompanhou a melhoria clínica.
Outros estudos também identificaram os sistemas de recompensa e de ameaça do cérebro como alvos viáveis.
Replicado três vezes
O achado não foi isolado. A equipa de Meuret comparou a PAT com uma terapia de controlo em três ensaios separados, e o método venceu em todas as ocasiões.
“Este foi um resultado muito importante, sobretudo porque conseguimos replicá-lo três vezes”, afirmou Meuret.
A replicação é pouco comum neste ramo da psicologia, já que muitas terapias promissoras perdem força quando são testadas de novo. Três ensaios a apontar na mesma direcção é um sinal encorajador.
Ainda há limitações
Daqui para a frente, a equipa de Meuret consegue mostrar que os ganhos na sensibilidade à recompensa acompanharam a melhoria clínica. Contudo, ainda não pode provar que um factor causou o outro.
Tarefas comportamentais e medições da frequência cardíaca não acompanharam a mudança - apenas o auto-relato o fez.
Fica em aberto se as medidas laboratoriais são pouco sensíveis ou se o mecanismo central está noutro lugar.
A amostra de 98 adultos é relativamente pequena e todas as sessões foram feitas à distância, por vídeo.
Os investigadores consideram que uma aplicação presencial poderia ter reforçado o efeito específico da PAT na alegria, a única medida que não atingiu significância.
Futuro da terapia PAT
Apesar disso, a conclusão prática é clara. A PAT mostrou ser capaz de ensinar os doentes a voltar a saborear as pequenas alegrias do dia-a-dia, com ênfase em valorizar momentos positivos.
Além disso, a PAT superou a abordagem NAT que é usada como cuidado padrão há décadas.
De acordo com o estudo, a anedonia tem finalmente um tratamento centrado na própria ausência de alegria. Os clínicos podem começar a integrar a PAT no acompanhamento em curso, e muitas das técnicas são facilmente adaptáveis.
Estes dados podem mudar a forma como o campo da terapia define sucesso: não como a simples ausência de tristeza, mas como o regresso da alegria.
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