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Como o trabalho materno na Dinamarca pode influenciar o risco de autismo

Mulher grávida de óculos de segurança observa fábrica pela janela num escritório com ecografia sobre a secretária.

A questão do que molda o risco de autismo raramente tem uma resposta simples. A genética pesa bastante, mas não explica tudo.

Há anos que os investigadores tentam perceber de que forma o ambiente de uma mãe, antes e durante a gravidez, pode influenciar o desenvolvimento inicial do cérebro.

Um novo estudo chama a atenção para um factor frequentemente ignorado: o trabalho da mãe - não apenas durante a gestação, mas até vários anos antes.

Um puzzle do autismo em expansão

O autismo afecta a forma como as pessoas comunicam e se comportam. É uma condição que se mantém ao longo de toda a vida.

Nas últimas duas décadas, as taxas de diagnóstico aumentaram em muitos países, incluindo a Dinamarca. Só a genética não consegue justificar esta subida.

Esta lacuna levou a comunidade científica a olhar para factores ambientais. Têm sido avaliados a poluição do ar, substâncias químicas, níveis de stresse e padrões de estilo de vida.

Ainda assim, os resultados obtidos com frequência têm sido divergentes e, por vezes, pouco conclusivos.

Porque é que o ambiente de trabalho conta

A profissão define o que uma pessoa respira, toca e vivencia diariamente. Algumas funções envolvem químicos ou vapores; outras implicam pressão intensa.

Estudos anteriores tentaram relacionar exposições específicas com o risco de autismo. Contudo, muitos basearam-se em amostras pequenas ou em relatos dependentes da memória, o que tornou as conclusões mais incertas.

Este trabalho mais recente segue outra via: recorre a registos nacionais, em vez de depender do que as pessoas se recordam.

Dados únicos da Dinamarca

A Dinamarca mantém registos detalhados de cada residente. Todas as pessoas têm um identificador único que liga dados de saúde, trabalho e acontecimentos de vida - o que permite aos investigadores acompanhar padrões ao longo de décadas.

Neste estudo foram analisadas 1.702 crianças com diagnóstico de autismo. Para cada uma, foram seleccionadas muitas outras crianças sem diagnóstico correspondente.

Ao todo, o grupo de comparação ultrapassou as 108.000 crianças.

Os investigadores seguiram as ocupações maternas em quatro momentos: em qualquer altura da vida, no ano anterior à concepção, durante a gravidez e pouco após o nascimento.

Este detalhe temporal é, precisamente, um dos aspectos que mais distingue o estudo.

Profissões associadas ao risco de autismo

Depois de uma análise cuidada, três categorias profissionais destacaram-se.

As profissões ligadas ao transporte terrestre associaram-se a um risco 24% mais elevado de autismo, enquanto as funções na administração pública mostraram um aumento de 20%.

A associação mais forte surgiu nas ocupações militares e de defesa, em que o risco foi 59% superior.

A categoria de defesa foi particular: a ligação apareceu em todos os períodos avaliados, inclusive em anos anteriores à gravidez.

Outros tipos de emprego deram sinais iniciais, mas deixaram de ser estatisticamente significativos após as correcções aplicadas.

Exposição ao ar e a químicos

Muitas destas profissões partilham exposições semelhantes. Quem trabalha em transportes ou em defesa costuma lidar com gases de escape, combustíveis e químicos industriais.

Um exemplo importante é o escape de motores a gasóleo. Este liberta partículas finas que podem entrar no organismo e desencadear inflamação. São partículas suficientemente pequenas para atravessar barreiras biológicas.

Estudos anteriores já tinham associado este tipo de poluição a alterações no desenvolvimento cerebral precoce. Esta investigação acrescenta a exposição no local de trabalho como outra possível origem.

O stresse também tem peso

Nem todas as profissões com maior risco envolvem químicos. Algumas envolvem pressão.

Funções na administração pública e em áreas judiciais, por exemplo, podem exigir muitas horas e um nível elevado de responsabilidade. O stresse durante a gravidez pode alterar níveis hormonais e o fluxo sanguíneo.

Isso pode influenciar a forma como o cérebro fetal se desenvolve. Além disso, o stresse pode interagir com a exposição química, reforçando os efeitos quando ambos estão presentes.

Diferenças entre rapazes e raparigas

O autismo é mais frequente em rapazes, mas este estudo sugere que os padrões de risco podem variar consoante o sexo.

Nos rapazes, o risco mais elevado apareceu em funções de transportes e em profissões da área judicial. Nas raparigas, destacou-se de forma mais nítida a administração pública.

As razões continuam por esclarecer. Diferenças biológicas podem estar envolvidas. A placenta, as hormonas e o desenvolvimento cerebral seguem trajectórias distintas em indivíduos do sexo masculino e feminino.

Exposição antes da gravidez

Um resultado sobressai. Parte dos riscos esteve associada a trabalhos desempenhados anos antes da gravidez.

Isto aponta para a bioacumulação. Determinados químicos permanecem no organismo durante longos períodos; podem ficar armazenados na gordura e ser libertados mais tarde, durante a gestação.

Assim, uma exposição passada pode continuar a ter impacto numa criança em desenvolvimento. A janela de preocupação poderá ir muito além de nove meses.

Limitações do estudo

A investigação tem algumas limitações. As categorias profissionais não descrevem tarefas exactas; duas pessoas na mesma indústria podem enfrentar exposições muito diferentes.

Alguns grupos de emprego tinham poucos casos para uma análise mais aprofundada. Além disso, os métodos de diagnóstico mudaram ao longo do tempo, o que pode influenciar os resultados.

O ambiente laboral e o sistema de saúde dinamarqueses diferem dos de outros países, o que pode limitar a aplicabilidade das conclusões a outras populações.

Direcções para investigação futura

Os próximos estudos precisam de dados mais precisos. Em vez de títulos profissionais amplos, os investigadores pretendem medir a exposição química real.

Também querem analisar substâncias concretas, como solventes e compostos industriais.

Ir além do diagnóstico em si poderá ajudar. O autismo é muito variável, e a exposição pode influenciar a gravidade ou determinados traços.

“Ocupaçõs maternas com exposição frequente a substâncias tóxicas e a produtos de combustão, bem como ocupações com elevado stresse, podem contribuir para o risco no neurodesenvolvimento”, referiram os investigadores.

Implicações mais amplas da investigação

Este estudo não afirma que qualquer profissão cause autismo. O risco individual mantém-se baixo. Muitos factores interagem de forma complexa.

O que os dados sugerem é que o ambiente de trabalho de uma mãe passa a integrar o mundo inicial de uma criança.

Essa influência pode começar muito antes da gravidez e prolongar-se por muito tempo no futuro.

Compreender esta ligação ajuda a alargar a forma como pensamos sobre saúde, risco e os ambientes em que vivemos e trabalhamos.

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