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A genética da BOAS em Bulldogs, Bouledogues Franceses e Pugs abre caminho a criação selectiva

Veterinário a examinar dois cães bulldog francês numa clínica com modelo de DNA e crânio na mesa.

A quem tem cães de focinho achatado repetem sempre a mesma frase: o ressonar e a respiração esforçada “fazem parte da raça”.

Só que, até agora, faltava um número claro que mostrasse até que ponto estes problemas respiratórios são herdados.

Os novos resultados indicam que a componente hereditária é suficientemente elevada para que os criadores consigam, de forma realista, seleccionar animais mais saudáveis.

Problemas respiratórios em cães

A condição tem um nome clínico: síndrome obstrutiva das vias aéreas braquicefálicas (BOAS).

Pode provocar respiração ruidosa, intolerância ao exercício, dificuldade em arrefecer e, nos casos mais graves, colapso ou morte.

Os cães de cara achatada apresentam esta síndrome com muito maior frequência do que outras raças. O excesso de peso agrava os sinais. O que faltava compreender, porém, era a dimensão do factor genético.

O novo estudo foi coordenado pela Dra. Joanna Ilska, geneticista no Royal Kennel Club (RKC).

Para isso, a equipa recorreu a dados de um programa de rastreio criado pelo clube em parceria com a University of Cambridge.

Dados de milhares de cães

Os investigadores examinaram registos de 1.474 Bulldogs, 1.917 Bouledogues Franceses e 900 Pugs.

Cada cão realizou um teste de exercício padronizado, avaliado numa escala de zero a três; pontuações de dois ou três foram consideradas clinicamente afectadas.

Os resultados clínicos surgiram abaixo do que era esperado. Cerca de 15,6% dos Bouledogues Franceses, 18,9% dos Bulldogs e 19,8% dos Pugs foram classificados como afectados. Trabalhos de referência anteriores apontavam valores acima de 50%.

Os autores avançam duas possíveis razões. Por um lado, a amostra foi cinco a dez vezes maior do que a de estudos anteriores.

Por outro, a prevalência de obesidade também foi inferior à observada noutros conjuntos de dados - embora não seja claro se isso reflecte uma gestão mais cuidada ou um enviesamento de amostragem.

O papel da genética

A análise mostrou que, nas três raças, entre 21% e 49% da variação na pontuação respiratória de um cão se devia à genética.

Isto significa que a função respiratória pode ser melhorada através de selecção na criação, em vez de ficar dependente do acaso.

O peso corporal seguiu a mesma lógica. O mesmo aconteceu com a estenose das narinas - o estreitamento das narinas que limita o fluxo de ar antes mesmo de a respiração chegar à garganta.

Entre 31% e 39% da variação na largura das narinas era herdada.

Além disso, as características estavam associadas em todas as três raças. Narinas mais estreitas correspondiam a piores pontuações respiratórias. E cães com pontuações fracas tendiam a ter mais peso.

Um artigo anterior já tinha identificado narinas estreitas e condição corporal elevada como factores de risco. Esta análise indica que essa ligação está inscrita no genoma.

Ligação entre estrutura facial e função

Um resultado surpreendeu a equipa. Os Bouledogues Franceses tiveram a taxa mais baixa de BOAS entre as três raças, mas apenas 6% apresentavam narinas classificadas como abertas. Os restantes situavam-se algures na escala de estenose.

Ter narinas estreitas aumenta em 2,6 vezes a probabilidade de BOAS. A obesidade eleva o risco em 3,8 vezes. Ainda assim, a raça com piores narinas exibiu a taxa clínica mais baixa.

Os investigadores interpretam isto como um indício de que a relação entre conformação facial e função não se explica por um único traço.

Várias características contribuem para o avanço da síndrome e actuam em conjunto - não de forma isolada.

Falta de dados para cães de companhia

A adesão ao rastreio ajuda a completar o quadro. Ao fim de sete anos de programa, apenas uma pequena parcela das três raças foi efectivamente avaliada.

Nos Pugs, os testes atingiram um pico em 2023, com 3,1% dos cães nascidos nesse ano. No Bouledogue Francês, as taxas mantiveram-se entre 0,4% e 0,9%.

Nos Bulldogs, a participação é um pouco superior, mas continua a situar-se em valores de um dígito baixo.

Cães oriundos de linhas de exposição são testados com muito mais frequência.

Já os animais criados para o mercado de companhia quase não entram nos dados. E, quando aparecem, as suas pontuações tendem a ser ligeiramente piores do que a média.

São necessários padrões de criação mais rigorosos

Essa lacuna começa a diminuir, pelo menos num contexto. A partir de 2025, todos os Bulldogs, Bouledogues Franceses e Pugs inscritos no Crufts terão de ter um teste respiratório registado.

Os cães com as pontuações mais graves ficam impedidos de entrar no ringue. Em 2026, também os animais classificados como moderadamente afectados deixarão de poder participar na maior exposição canina do Reino Unido.

Um estudo separado estima que quase um em cada seis cães no Reino Unido pertence à categoria de focinho achatado, o que dá uma ideia do impacto em termos de bem-estar.

"Os nossos resultados fornecem evidência clara de que a saúde respiratória nestas raças é influenciada por diferenças genéticas entre cães e, de forma importante, que a melhoria é possível através de criação selectiva", afirmou Ilska.

O estudo defende a adopção de normas de criação mais exigentes.

Mais de três quartos dos cães testados já passam na escala respiratória, e excluir casos limítrofes dos grupos de reprodução pode acelerar esse progresso.

O que muda agora

Até este trabalho, não existia uma estimativa dentro de cada raça sobre quanto da BOAS é explicada pela genética nas três raças emblemáticas de focinho achatado.

Esses valores passam agora a estar disponíveis, extraídos do maior conjunto de dados alguma vez reunido para responder a esta pergunta.

A criação selectiva para melhorar a respiração deixa de ser uma hipótese teórica. Passa a ser uma alavanca mensurável, com dimensões de efeito que um criador pode incorporar no planeamento.

O que muda é aquilo que se pode exigir aos criadores - e aquilo que os compradores podem e devem perguntar antes de avançarem com um sinal.

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