Recomendações para um envelhecimento saudável costumam vir acompanhadas de um aviso: a partir de certa idade, o estrago já está feito e o foco deixa de ser melhorar para passar a abrandar o declínio.
Um novo estudo indica, contudo, que o organismo pode reagir muito mais depressa - e mais tarde na vida - do que muita gente imagina.
Em apenas quatro semanas, adultos mais velhos que passaram para dietas cuidadosamente estruturadas começaram a apresentar alterações mensuráveis em biomarcadores associados ao envelhecimento biológico.
Os resultados apontam que, mesmo depois dos 65 anos, a “idade” interna do corpo pode continuar surpreendentemente maleável, e que determinados padrões alimentares conseguem empurrar essas leituras para um sentido mais jovem em poucas semanas.
Mudança mensurável em quatro semanas
Uma equipa liderada pela Dra. Caitlin Andrews, na Universidade de Sydney, recrutou 104 adultos com idades entre os 65 e os 75 anos. Cada participante foi colocado, de forma aleatória, num de quatro planos alimentares concebidos ao detalhe.
Durante 28 dias, os investigadores prepararam e entregaram todas as refeições. Antes e depois da intervenção, avaliaram um vasto conjunto de marcadores sanguíneos e indicadores clínicos.
No final do mês, a maioria das pessoas apresentava uma idade biológica inferior à registada no início.
As descidas mais expressivas surgiram nas dietas que mais se afastavam dos hábitos alimentares habituais dos participantes.
Por dentro das dietas do envelhecimento
Em todos os regimes, 14% da energia provinha de proteína. O que variava era a origem dessa proteína e a forma como gorduras e hidratos de carbono eram distribuídos.
Duas dietas eram omnívoras: metade da proteína vinha de carne e lacticínios e a outra metade de alimentos de origem vegetal.
As outras duas eram semi-vegetarianas, com 70% da proteína a vir de fontes vegetais.
Dentro de cada par, uma versão tinha mais gordura e menos hidratos de carbono. A outra invertia a proporção: cerca de 53% da energia era fornecida por hidratos de carbono, enquanto 28% vinha de gordura.
Nenhum dos hidratos de carbono era refinado. A principal origem eram cereais integrais, leguminosas, vegetais e fruta - alimentos de libertação lenta, em vez de açúcares e farinhas processadas.
Ler o envelhecimento através das análises ao sangue
A idade biológica não corresponde a um número do calendário. Trata-se de uma estimativa de quão bem o corpo está a funcionar quando comparado com pessoas da mesma idade cronológica.
Para a calcular, os investigadores combinam biomarcadores obtidos em análises ao sangue e testes clínicos - incluindo colesterol, insulina, proteína C-reactiva, tensão arterial e indicadores de funcionamento renal e hepático.
Quando os valores estão piores do que o habitual para aquela idade, o corpo “parece” mais velho do que a idade no calendário sugere. Se esses números melhorarem, a leitura passa a ser mais jovem.
Neste estudo, a equipa analisou 20 marcadores recorrendo a dois algoritmos. Ambos chegaram a conclusões semelhantes.
Um ensaio anterior mostrou que dois anos de restrição calórica abrandaram uma pontuação semelhante em adultos de meia-idade. A questão era saber se quatro semanas de alimentação estruturada, sem reduzir calorias, conseguiriam produzir efeitos parecidos em adultos mais velhos saudáveis.
Uma dieta destacou-se claramente
O grupo omnívoro com mais gordura - o mais próximo de um padrão alimentar típico australiano - praticamente não registou alterações. A estimativa de idade biológica quase não mudou do início ao fim.
Já os outros três grupos avançaram no sentido de uma leitura mais jovem. Entre eles, o resultado mais nítido foi o do grupo omnívoro rico em hidratos de carbono: menos gordura, mais hidratos de carbono não refinados e a mesma quantidade de proteína.
A descida estimada foi equivalente a cerca de três a quatro anos biológicos na escala composta de biomarcadores, face à dieta de controlo, em apenas 28 dias.
Os dois grupos semi-vegetarianos também apresentaram reduções.
Num dos grupos, os valores foram suficientemente fortes para atingir significância estatística. No outro, a tendência seguiu a mesma direcção, embora sem chegar a esse limiar.
O possível papel da fibra no envelhecimento
As três dietas associadas a melhorias partilhavam alguns elementos. Menos gordura saturada. Mais hidratos de carbono provenientes de alimentos integrais. E, muitas vezes, mais proteína vegetal vinda de leguminosas, cereais, frutos secos e vegetais.
Um estudo anterior com gémeos idênticos concluiu que uma dieta vegana de oito semanas reduziu vários marcadores ligados ao envelhecimento quando comparada com uma dieta omnívora. O ensaio de Sydney prolonga esse padrão para um grupo etário muito mais avançado.
A fibra alimentar poderá explicar parte do efeito. Dietas ricas em fibra tendem a ter menos gordura saturada e a conduzir a níveis mais baixos de inflamação no sangue - exactamente o tipo de alteração que a pontuação de idade biológica procura captar.
A insulina tende a estabilizar. O colesterol pode descer. E os valores de “fundo” do organismo começam a parecer os de uma pessoa mais saudável, vários anos mais nova.
Os efeitos no envelhecimento podem durar?
Este foi um ensaio curto. Algumas semanas de alimentação controlada conseguem alterar a química do sangue rapidamente. Já saber se essas melhorias se mantêm quando deixam de chegar refeições preparadas é outra questão.
“É demasiado cedo para dizer de forma definitiva que alterações específicas na dieta vão prolongar a sua vida. Mas esta investigação oferece uma indicação inicial dos potenciais benefícios de mudanças alimentares mais tarde na vida”, afirmou a Dra. Andrews.
Os participantes eram não fumadores saudáveis e sem doenças graves, e cada grupo de dieta tinha, em média, apenas cerca de 26 pessoas.
Além disso, as pontuações iniciais já tendiam a ser mais jovens do que a média. Um grupo mais frágil poderia reagir de outra forma.
Embora a pontuação de biomarcadores ajude a prever longevidade em grandes populações, ainda ninguém demonstrou que mexer nela durante um mês altere, anos mais tarde, a curva de doença.
A dieta pode remodelar o envelhecimento mais depressa
O que este ensaio demonstra, pela primeira vez em adultos mais velhos saudáveis, é que esta pontuação composta de idade pode responder a mudanças na alimentação no espaço de um único mês.
Não é uma medida fixada apenas pela idade. A leitura desloca-se com o que as pessoas comem - e a direcção parece depender mais de reduzir gordura saturada e aproximar a alimentação de padrões de base vegetal do que de cortar calorias.
Para clínicos que aconselham doentes no final dos 60 e durante os 70 anos, isto é um sinal relevante. Muitas vezes, os pacientes mais velhos ouvem que mudanças com impacto demoram anos. Estes resultados em biomarcadores sugerem um cenário menos desanimador.
Trabalhos de maior duração associaram dietas mais orientadas para alimentos de origem vegetal na meia-idade a um envelhecimento mais saudável décadas depois. O estudo de Sydney traz o mesmo padrão para um horizonte temporal muito mais curto - e para um grupo etário bastante mais avançado.
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