Cientistas têm analisado o bocejo pré-natal com bastante detalhe e sabem que ele surge por volta das 11 semanas de gestação.
Também é conhecido que o bocejo ajuda a treinar a musculatura necessária para a respiração após o nascimento e que parece funcionar sobretudo como um reflexo interno - aparentemente desligado do mundo exterior.
Uma equipa de investigação em Itália veio agora pôr essa ideia em causa. O que observaram foi isto: o feto boceja com maior frequência nos minutos seguintes ao bocejo da mãe - apesar de não a poder ver, ouvir ou tocar.
Bocejar sem ar
Os fetos começam a bocejar por volta das 11 semanas de gravidez. Como no útero não há ar para inspirar, o gesto manifesta-se como um alongamento lento.
Primeiro, a boca abre; depois surgem movimentos semelhantes aos da respiração; por fim, a boca vai-se fechando de forma gradual.
Investigação anterior com ecografia 4D acompanhou este comportamento ao longo do segundo e do terceiro trimestre e mostrou que ele segue um trajecto de desenvolvimento previsível.
Até há pouco tempo, estes bocejos pré-natais eram atribuídos a “cablagem” interna - um reflexo inato que ensaia os músculos de que o bebé vai precisar para respirar depois de nascer.
Giulia D’Adamo, neurocientista e psicóloga na Universidade de Parma, em Itália, desconfiava de que essa descrição estava incompleta.
Para ela, a gravidez não é apenas uma ligação fisiológica entre dois corpos; pode ser também uma ligação comportamental.
“Durante a gravidez, tudo é trabalho de base para o que vai acontecer a seguir”, disse D’Adamo.
Dentro de uma sala silenciosa
Para este novo estudo, a equipa recrutou 38 mulheres grávidas no terceiro trimestre, entre as 28 e as 32 semanas, todas com gravidezes saudáveis e sem complicações.
Cada participante ficou sentada numa sala tranquila a ver três pequenos vídeos: pessoas a bocejar, pessoas a fazer movimentos da boca que não eram bocejos e pessoas com um rosto neutro e imóvel.
Uma câmara registou as expressões da mãe. Em simultâneo, uma sonda de ecografia filmou a face do feto. Assim, o grupo conseguiu identificar com precisão quando um bocejo era seguido por outro.
Bocejos fetais que não são ao acaso
Cerca de 64 por cento das mães bocejaram pelo menos uma vez ao ver o excerto com bocejos. Em pouco mais de metade desses casos, os respectivos fetos também bocejaram - normalmente cerca de um minuto e meio depois.
Noventa segundos pode parecer muito tempo. Ainda assim, fica confortavelmente dentro da janela de 5 minutos que os cientistas consideram como limite superior para detectar “apanhar” um bocejo entre adultos.
E estes bocejos fetais não surgiram por acaso. Coincidiram com os bocejos maternos com uma frequência muito superior àquela que seria de esperar por mera probabilidade.
Quando a mãe mantinha uma expressão séria ou apenas mexia a boca sem bocejar, o feto raramente “entrava na onda”.
Uma ligação entre mãe e filho
Para confirmar que não se tratava de coincidência, a equipa baralhou os dados: associou a gravação de cada mãe ao feto de outra mulher e repetiu a mesma análise temporal.
Nesse cenário, o efeito desapareceu. A ligação bocejo-depois-do-bocejo só apareceu nos pares reais mãe–feto. Ou seja, era um fenómeno específico daquele par e não uma característica geral da gravidez.
Até este trabalho, ninguém tinha testado se o bocejo contagioso em humanos começava antes do nascimento.
Partia-se do princípio de que “apanhar” bocejos exigia aquilo que um feto não tem - um rosto para observar, uma voz para ouvir ou algum sentido de proximidade de outra pessoa.
Sinais que atravessam o corpo
Como o feto não consegue ver a mãe num ecrã, o estímulo tem de chegar por outras vias, através do corpo.
D’Adamo suspeita de que o próprio acto motor do bocejo - a inspiração profunda e a pressão do diafragma - gere um sinal mecânico que se transmite pela parede uterina.
É possível que as hormonas também tenham um papel. O bocejo está associado a alterações no ritmo cardíaco e no estado de activação, e alguns desses sinais podem chegar ao feto pela circulação sanguínea partilhada.
No entanto, o mecanismo concreto - mecânico ou químico - ainda não foi identificado.
Um padrão ao longo da gravidez
Trabalho anterior já tinha sugerido que a gravidez altera a forma como as mulheres bocejam.
Um artigo de 2021 relatou que mulheres grávidas “apanham” bocejos em vídeos com maior facilidade do que mulheres que nunca estiveram grávidas.
Os investigadores associaram esse padrão às mudanças hormonais e cerebrais que preparam as mães para cuidar de um recém-nascido - uma espécie de preparação para a atenção próxima e sintonizada de que os bebés precisam.
Até agora, o bocejo fetal era observado de forma isolada - quantificado, mas sem ser emparelhado em tempo real com o comportamento da mãe. Este novo estudo preenche essa lacuna.
O que isto muda
A mensagem principal é simples: nos humanos, “apanhar” bocejos não começa com o nascimento. Começa dentro do útero, entre a mãe e o feto que ela transporta - sem visão, sem som e sem que ninguém tenha de explicar o que quer que seja.
Esta conclusão reabre uma pergunta mais ampla sobre o desenvolvimento pré-natal. Se um bocejo consegue passar da mãe para o feto, é plausível que outros comportamentos também passem - respostas ao stress, ao riso, ao descanso.
A partir daqui, os investigadores podem procurar esses padrões de forma directa, em vez de tratarem o feto como um sistema fechado. E os médicos que acompanham a fase final da gravidez podem ganhar mais um sinal comportamental para observar ao longo do tempo.
“Estes resultados desafiam a ideia de que o comportamento fetal é puramente reflexo ou totalmente auto-contido”, concluíram os investigadores.
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