O fluxo sanguíneo no cérebro e a velocidade de processamento começam a abrandar em adultos saudáveis logo a partir do final dos 20 anos.
As alterações não são bruscas - trata-se mais de um declínio silencioso e gradual que a maioria das pessoas não nota até ao momento em que alguma coisa falha.
Para perceber se essa tendência podia ser invertida, foi realizado um estudo de três anos com quase 4.000 adultos. Os resultados acabaram por surpreender até os próprios investigadores.
A Dra. Lori G. Cook é directora de investigação clínica no Centro de Saúde Cerebral da Universidade do Texas em Dallas (UT Dallas).
Ao conceber a avaliação principal do estudo, Cook optou, de forma intencional, por um enfoque no crescimento e não na perda.
A equipa acompanhou 3.966 adultos com idades entre 19 e 94 anos, distribuídos por 50 estados e 60 países.
Acompanhar mudanças no cérebro
Os investigadores monitorizaram os participantes através de uma avaliação chamada Índice BrainHealth (BHI).
O índice é actualizado a cada seis meses com tarefas que avaliam raciocínio, sono, humor e ligação social.
Ao contrário de muitos testes tradicionais, desenhados para detectar doença, o BHI compara cada pessoa apenas com os seus próprios resultados anteriores, em vez de recorrer a médias populacionais.
O índice organiza o funcionamento cerebral em três factores: clareza (pensamento e memória), conectividade (laços sociais e sentido de propósito) e equilíbrio emocional (humor e stress).
A maior parte das ferramentas clínicas existe para sinalizar declínio cognitivo e doença - olham para baixo. O BHI faz o inverso, registando melhorias com a mesma facilidade com que identifica perdas.
Quem começou por baixo foi quem mais cresceu
Ao longo de três anos, os participantes que iniciaram com as pontuações mais baixas foram os que mais progrediram. Em quase todas as medidas, os seus ganhos ultrapassaram os dos grupos intermédios e do topo.
Estes dados puseram em causa a ideia comum de que um desempenho cognitivo baixo é imutável - algo com que se nasce e que não se consegue alterar.
Na prática, quem começou com valores inferiores reduziu de forma substancial a diferença face a quem partiu em vantagem.
Também houve uma surpresa entre os melhores resultados iniciais. A teoria estatística sugeriria que os participantes com pontuações mais elevadas tenderiam a estabilizar. Não foi isso que aconteceu.
Mesmo quem já estava perto do topo continuou a melhorar durante os três anos completos, sem que se observasse um tecto evidente.
Os autores apontam a neuroplasticidade como explicação - a capacidade, conhecida há muito, de o cérebro se reorganizar e reforçar em qualquer idade.
O campo terá subestimado quanta margem para evolução ainda existia, inclusive entre os participantes com melhor desempenho.
Um compromisso de tempo reduzido
Um dos factores mais fortes a prever melhorias foi, afinal, o uso da plataforma.
Quando os participantes foram agrupados por nível de envolvimento - baixo, moderado e elevado - surgiram diferenças muito marcadas nos resultados.
Os utilizadores com envolvimento elevado melhoraram de forma consistente nas quatro pontuações. Já os utilizadores com envolvimento baixo não apresentaram alterações relevantes. Esta diferença manteve-se independentemente da idade, do género ou da escolaridade.
O tempo exigido era reduzido: cerca de 5 a 15 minutos por dia, dedicados a actividades curtas de treino.
As actividades incluíam vídeos, verificações de conhecimento e sugestões orientadas para raciocínio, sono e stress. Os participantes podiam ainda aderir, de forma opcional, a chamadas de acompanhamento a cada três meses.
A equipa identificou uma tendência que não antecipara: 63% dos participantes que começaram como utilizadores com envolvimento baixo aumentaram a sua participação ao fim de seis meses. À medida que sentiam os efeitos das ferramentas, a maioria aprofundava o compromisso.
A auto-agência impulsiona os ganhos
Cook e os seus colegas defendem que o motor não foi apenas o número de horas acumuladas.
Segundo os autores, o impulsionador mais profundo é a auto-agência - a sensação de que uma pessoa consegue mudar o próprio cérebro, associada aos instrumentos para o fazer.
O programa de treino assenta no SMART (Tácticas Estratégicas de Memória e Raciocínio Avançado). Ensina as pessoas a distanciar-se dos problemas, a dar prioridade ao que é mais importante e a sintetizar, em vez de apenas memorizar.
Ensaios aleatorizados anteriores já tinham mostrado uma comunicação mais activa nas redes frontais do cérebro após o treino SMART. O estudo actual amplia esses resultados para um grupo real muito maior.
Os ganhos também se relacionaram com competências de função executiva - as ferramentas mentais que permitem regular a atenção, planear e concretizar.
O efeito de recuperação
Nem todas as trajectórias evoluíram de forma linear. Alguns participantes passaram por desemprego, doença grave ou períodos intensos de prestação de cuidados e viram as suas pontuações descer.
Muitos recuperaram. Alguns ultrapassaram os seus registos anteriores em poucos momentos de avaliação.
Os investigadores chamam a isto efeito de recuperação - um indício de que, perante stress, a função cerebral pode voltar a subir quando os hábitos certos já estão implementados.
Uma nova forma de abordar a saúde cerebral
A Comissão Lancet sobre demência de 2024 apontou para factores de risco modificáveis. Um relatório recente defendeu a construção de reserva cognitiva mais cedo na vida. Os dados de três anos de Cook dão suporte concreto a essa perspectiva.
“Cada cérebro é tão único como uma impressão digital e tem potencial de crescimento”, afirmou Cook. Para ela, os resultados reforçam a necessidade de deslocar a saúde cerebral de uma medicina reactiva para uma lógica de prevenção.
O que fica agora demonstrado, pela primeira vez a esta escala, é que a saúde cerebral responde a uma prática deliberada, escalável e acessível ao longo de toda a vida adulta.
Os médicos poderiam acompanhá-la como acompanham o colesterol, com trajectórias pessoais em vez de fotografias isoladas. E os doentes poderiam detectar sinais de alerta anos antes de os testes convencionais os registarem.
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