Um em cada cinco canadianos vive, em determinado momento, com dificuldades de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Este valor tem aumentado de forma contínua nos últimos anos e, embora a forma como falamos sobre saúde mental tenha evoluído, o estigma continua a ser significativo. De facto, as pessoas têm quase três vezes menos probabilidade de declarar uma doença mental do que uma doença física.
Existem muitos tratamentos eficazes para a saúde mental. Ainda assim, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento pode demorar anos.
Por vezes, as prescrições usadas para tratar perturbações do humor têm efeitos secundários que levam algumas pessoas a evitar a medicação ou a interrompê-la. Além disso, a terapia tradicional pode ser dispendiosa e nem sempre é comparticipada por seguros ou benefícios.
Entretanto, há outra ferramenta - frequentemente prescrita para melhorar a saúde cardiovascular e metabólica - que pode ser uma adição extremamente útil aos cuidados e à gestão da saúde mental. Que ferramenta poderia, afinal, ajudar em tantas condições? O exercício!
Sim! Levantar pesos também levanta o humor
Muitas pessoas já sentiram aquela sensação de bem-estar depois de treinar, mas será que ir ao ginásio pode mesmo ajudar na depressão e na ansiedade? A ciência diz: sem dúvida.
Está demonstrado que o exercício melhora os sintomas de ansiedade e depressão, tanto a curto como a longo prazo. Pode apoiar a regulação do humor e, em particular, reforçar a resiliência emocional perante stress agudo.
Apesar de relatos de melhoria do humor após um treino poderem parecer subjectivos, os efeitos positivos do exercício na saúde mental também se observam ao nível bioquímico.
Talvez já tenha ouvido falar de "euforia do corredor", a sensação de prazer ou euforia que muitas pessoas experienciam após fazer exercício. Em grande parte, isto acontece devido ao aumento do que chamamos endocanabinóides e endorfinas - hormonas e moléculas associadas a sensações de felicidade ou contentamento.
'Bons' e 'maus' metabolitos do triptofano
Pode haver, no entanto, outra molécula importante a agradecer: o triptofano.
O triptofano é um aminoácido essencial que absorvemos através da alimentação e desempenha vários papéis relevantes no organismo humano. A partir do triptofano, o corpo produz serotonina - frequentemente apelidada de hormona do bem-estar -, mas o triptofano também pode ser degradado para gerar moléculas com efeitos diferentes no cérebro e no corpo.
A principal via responsável pela degradação do triptofano chama-se via da quinurenina. Alguns produtos desta via, como o ácido quinurénico, podem ter um efeito protector contra a inflamação e ser benéficos para a saúde cerebral. Outros, como o ácido quinolínico, podem estar associados a toxicidade e inflamação.
Na realidade, várias condições crónicas - como depressão, doença de Alzheimer e cancro - têm sido associadas a níveis mais elevados de metabolitos "maus" da quinurenina.
Tendo em conta a ligação do triptofano tanto à saúde mental como a condições neurodegenerativas, os investigadores começaram a explorar como gerar mais moléculas benéficas e menos moléculas prejudiciais. Ao influenciar o percurso seguido dentro da via da quinurenina, poderá ser possível orientar o organismo para um estado mais saudável e neuroprotector.
O exercício parece ser um regulador forte desta mudança.
Um retorno imediato do investimento
Os estudos mostram que o treino pode provocar aumentos imediatos e directos de moléculas com efeito protector no cérebro, como o ácido quinurénico, medidos no sangue e no músculo após o exercício. Estas alterações benéficas foram observadas após ciclismo de resistência, treino com pesos e treino HIIT.
Também em populações com condições metabólicas adicionais, como diabetes tipo 2, se registaram mudanças favoráveis nos metabolitos do triptofano depois de uma única sessão de exercício.
Melhor ainda, estas melhorias foram descritas em diferentes faixas etárias, o que sugere benefícios tanto para pessoas mais jovens como mais velhas.
Até ao momento, os estudos em laboratório têm recorrido sobretudo a protocolos tradicionais de exercício, como ciclismo e treino de resistência. No entanto, tudo indica que ser mais activo fisicamente no dia-a-dia também melhora o perfil destes metabolitos - isto é, não é obrigatório treinar num laboratório para ver progressos.
Apesar de o exercício mostrar grande potencial como fonte de melhoria do humor e de protecção cerebral, a investigação nesta área ainda está a crescer. É necessário mais trabalho para compreender os mecanismos exactos ao nível molecular que expliquem como e porquê o exercício tem um papel tão importante na regulação destes metabolitos.
Não se preocupe com coisas pequenas; sue!
No essencial, o exercício é uma ferramenta poderosa para contribuir para uma melhor saúde mental. Existe evidência robusta a apoiar o uso do exercício na gestão do stress e na produção adicional de hormonas e metabolitos associados ao bem-estar, o que pode ajudar na gestão de perturbações do humor.
O exercício também pode proporcionar uma mudança de ambiente, um momento social ou simplesmente uma distracção intencional por um curto período. Estes factores podem ser importantes para a saúde mental. Actividades em grupo, como clubes de corrida e ligas de pickleball, podem funcionar como potenciadores de humor com múltiplas valências.
Por isso, embora treinar possa parecer a última coisa que apetece fazer - sobretudo no meio de um inverno canadiano -, os benefícios compensam claramente enfrentar o frio.
Meghan McCue, Ph.D., Investigadora de Pós-Doutoramento, Faculdade de Ciências da Saúde, McMaster University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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