Muita gente entra num museu, pega num romance ou passa a noite num concerto sem pensar, por um segundo que seja, em saúde. Não há contagem de calorias. Não há monitorização da frequência cardíaca. E ninguém sai com uma prescrição médica anexada.
Essa ideia, porém, começa a ser mais difícil de sustentar. Uma investigação recente, ao medir a velocidade a que as pessoas envelhecem, detetou um sinal inesperado no sangue de quem frequenta com regularidade eventos artísticos, visita museus ou pega num pincel.
Envolvimento regular nas artes e envelhecimento
O estudo foi coordenado pela professora Daisy Fancourt, epidemiologista no University College London (UCL), que há quase uma década analisa a ligação entre as artes e a saúde física.
A equipa quis perceber se o envolvimento regular nas artes - ler, ouvir música, pintar, cantar, visitar museus - poderia alterar o ritmo molecular do envelhecimento.
O resultado apanhou até os especialistas de surpresa. A participação semanal em atividades artísticas e culturais associou-se a um abrandamento mensurável do envelhecimento biológico, com efeitos comparáveis aos do exercício físico regular.
Como se estima a idade biológica
O organismo regista o seu próprio desgaste através de uma assinatura química conhecida como metilação do ADN.
Moléculas de metilo fixam-se ao genoma em milhares de locais específicos, ligando alguns genes e silenciando outros - sem modificar o código genético subjacente.
Os cientistas aprenderam a interpretar estes padrões e a convertê-los numa estimativa de idade biológica. Essa estimativa pode coincidir com a idade cronológica, ficar atrás dela ou adiantar-se vários anos.
Estas ferramentas, chamadas relógios epigenéticos, evoluíram por gerações. As versões mais antigas previam a idade apenas com base nos padrões do ADN. As mais recentes incorporam resultados laboratoriais e dados de saúde física, e as mais avançadas acompanham o ritmo real a que as alterações ocorrem.
Leitura dos relógios epigenéticos
A equipa da UCL aplicou a análise a sete destes relógios, recorrendo a amostras de sangue de 3,556 adultos do Reino Unido.
As amostras foram recolhidas entre 2010 e 2012 e cada uma foi analisada em mais de 850,000 locais de metilação.
No relógio mais recente, chamado DunedinPACE, as pessoas que participavam numa atividade artística pelo menos uma vez por semana envelheciam 4% mais lentamente do que aquelas que raramente se envolviam.
A participação mensal correspondeu a um abrandamento de 3%. Mesmo uma frequência de apenas algumas vezes por ano - três ou quatro sessões - foi associada a um abrandamento de 2%.
Para comparação, no mesmo conjunto de dados, quem fazia exercício semanalmente apresentou aproximadamente o mesmo abrandamento de 4% quando comparado com pessoas que não faziam qualquer exercício.
No relógio PhenoAge, os participantes frequentes em atividades artísticas eram, em média, um ano mais jovens do que os que raramente participavam - diferença que se manteve mesmo após controlar peso, tabagismo, rendimento e escolaridade.
Atividades artísticas melhoram a saúde global
A frequência não foi o único indicador com impacto. Quem se envolvia numa maior diversidade de atividades também envelhecia mais devagar, independentemente de quantas vezes fazia cada uma delas.
“Isso pode acontecer porque cada atividade tem ‘ingredientes’ diferentes que ajudam a saúde, como estimulação física, cognitiva, emocional ou social”, afirmou Fancourt, autora principal do estudo.
Pintar num mês, visitar uma galeria no seguinte e depois explorar um local histórico pode ativar várias vias relacionadas com a saúde em simultâneo.
Cada atividade combina, de forma própria, alívio do stress, desafio mental e interação social; e o organismo pode estar a responder ao efeito agregado dessa mistura, e não a uma única atividade isolada.
Relógios modernos detetam alterações biológicas
Os quatro relógios mais antigos não mostraram qualquer efeito associado ao envolvimento nas artes ou ao exercício. Isto é consistente com trabalhos anteriores sobre desempenho físico e envelhecimento.
Os relógios de primeira geração foram concebidos para acompanhar a idade cronológica. Captam sinais que mudam com o passar dos anos, e não sinais que reflitam comportamentos de saúde.
Já os relógios que reagiram - PhenoAge, DunedinPoAm e DunedinPACE - foram construídos para refletir saúde e mudança física, e não apenas a passagem do tempo.
Um artigo de validação do DunedinPACE indica que este consegue acompanhar, ao longo do tempo, o declínio físico e cognitivo.
Efeitos mais fortes depois dos 40
Quando a equipa limitou a análise a adultos com 40 anos ou mais, os efeitos tornaram-se mais pronunciados. Nos participantes mais jovens, a tendência foi a mesma, mas o sinal surgiu com menor intensidade.
Isto encaixa num padrão biológico mais amplo: o primeiro grande aceleramento do envelhecimento tende a manifestar-se nos 40 e poucos anos - possivelmente a razão pela qual o sinal do envolvimento nas artes foi mais forte nesse grupo.
“A nossa investigação fornece a primeira evidência de que o envolvimento nas artes e na cultura está ligado a um ritmo mais lento de envelhecimento biológico”, disse a Dra. Feifei Bu, autora sénior do estudo.
Implicações mais amplas do estudo
Até aqui, o envolvimento nas artes era visto sobretudo como uma atividade de bem-estar.
Era encarado como algo capaz de melhorar o humor ou ajudar a proteger contra a solidão, mas não como um elemento ao nível de conselhos de saúde tradicionais, como o exercício ou os cuidados cardiovasculares.
Esta nova análise indica que o envolvimento nas artes pode merecer um lugar nessa conversa.
O estudo mostra que a participação artística se reflete nos mesmos relógios modernos de envelhecimento que o exercício, com efeitos comparáveis.
Um ensaio recente sugere que a idade epigenética pode até ser reversível em certa medida - o que implica que os padrões de metilação deixados pelo stress, por uma alimentação deficiente ou pela inatividade não têm, necessariamente, de ser permanentes.
Se visitar um museu, ler um romance ou passar uma noite a desenhar pode influenciar o organismo de forma semelhante ao exercício, então o aconselhamento em saúde pública poderá ter de ir além da dieta e da forma física, por si só.
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