“Temos uma taxa elevadíssima de cancro do ovário hereditário”, afirma Tamara Milagre, presidente da Evita, uma associação sem fins lucrativos dedicada a pessoas que são, ou podem vir a ser, afetadas por cancro hereditário. A Evita procura acompanhá-las antes, durante e após a realização do teste genético, até ao encaminhamento para rastreios personalizados.
“15% a 20% dos cancros do ovário são hereditários. O cancro do endométrio pode estar, igualmente, envolvido nestas síndromes. Pode estar, por exemplo, ligado à síndrome de Lynch. Cada gene que está alterado coloca em risco um grupo de órgãos”, explica Tamara Milagre.
Cancro hereditário e literacia genética no cancro do ovário e do endométrio
Para a responsável, torna-se “fundamental apostar na literacia genética”, tanto junto da população como entre profissionais de saúde, com destaque para os médicos de Medicina Geral e Familiar. Na sua perspetiva, estes clínicos, apesar de muitas vezes acompanharem várias gerações da mesma família e conhecerem bem o historial familiar, podem não ter ferramentas para reconhecer padrões compatíveis com síndromes hereditárias.
“Temos, por exemplo, um médico de família que está a par do histórico familiar de um utente - às vezes, acompanha a segunda, terceira geração de uma família -, mas não consegue identificar padrões de síndromes. Não sabe, por exemplo, que um cancro do estômago pode ter a ver com o cancro da mama da prima ou que o cancro do pâncreas do tio pode ter a ver com o melanoma do irmão”, ilustra.
Acesso ao aconselhamento genético e potencial da inteligência artificial
Além das dificuldades de identificação, há ainda obstáculos no acesso. Mesmo quem tem informação suficiente para procurar uma consulta especializada tende a deparar-se com “listas de espera grandes”. Tamara Milagre sublinha que os tempos para aconselhamento genético são “muito longos” e aponta a utilização de inteligência artificial por profissionais de saúde como uma via para tornar mais simples e rápida a triagem e a deteção de situações de cancro hereditário.
Dados, registos oncológicos e assimetrias regionais
Nuno Bonito, especialista em Oncologia e presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia, destaca a importância da literacia em saúde e defende que esta “deve começar muito mais precocemente nas escolas e não nas redes sociais, porque são o pior local para divulgação de informação”. Chama também a atenção para a “completa inexistência de dados” sobre cancro em Portugal, referindo que a informação está “dispersa de norte a sul do país”, o que dificulta a compreensão do perfil da população. Para responder a esta falha, considera necessário um sistema universal a nível nacional, acompanhado de “mais robustez nos dados”.
A Criação de uma via verde pode tornar a comunicação entre médicos de família e hospitais mais direta
O professor e médico oncologista Miguel Abreu reforça que a falta de uniformidade entre sistemas - que diferem consoante as instituições de saúde - prejudica o funcionamento global. Na sua ótica, é essencial desenvolver “sistemas melhores”, de modo a permitir que a informação seja agregada automaticamente. Ainda assim, salienta que o registo oncológico continua dependente de inserção manual e que “tem de ter capacidade de resposta, mas não há gente para lá trabalhar”. Por isso, defende que “é preciso tornar o registo mais operacional” e assegurar “ter dados de qualidade”, analisados e publicados por profissionais “altamente especializadas” em Oncologia.
As desigualdades regionais são outro tema referido pelos especialistas como um desafio no cancro ginecológico. Nuno Bonito alerta que “O nível de cuidados pode estar dependente do código postal do doente” e sustenta que “não podemos permitir que haja assimetrias institucionais, que, por vezes, provocam a não uniformidade dos cuidados ao nível nacional”, defendendo intervenção política para corrigir estas falhas.
As recomendações de um estudo novo
O projeto “OncoGyn PT - Diagnóstico, Tratamento e Acesso no Cancro Ginecológico”, da Nova Medical School, coordenado pela investigadora Mariana Zagalo, descreve as dificuldades sentidas por doentes com cancro ginecológico - do ovário ou do endométrio - e apresenta um conjunto de recomendações alinhadas com as posições expressas pelos peritos.
As propostas incluem:
- Centralizar o tratamento em centros de referência acreditados pela Sociedade Europeia de Oncologia Ginecológica (ESGO).
- Implementar uma Via Verde OncoGyn, tornando o acesso a exames mais célere e a comunicação entre médicos de família e hospitais mais direta.
- Criar uma rede nacional de telediagnóstico, reduzindo as desigualdades regionais.
- Modernizar o acesso a testes genéticos, permitindo o seguimento de pessoas com risco hereditário e acesso atempado à prevenção primária.
- Criar um registo oncológico interoperável, permitindo a monitorização da jornada completa da doente.
- Reforçar a literacia em saúde, com campanhas diferenciadas para o cancro do ovário e do endométrio.
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