O exercício funciona como um medicamento para o coração e, tal como acontece com os fármacos, é necessária a “dose” certa para produzir efeito. Um estudo recente, no entanto, aponta que essa dose poderá não ser igual para todas as pessoas.
Segundo os investigadores, os homens precisam, em média, de cerca do dobro do exercício das mulheres para obter a mesma redução do risco de doença cardíaca.
Para chegar a estas conclusões, o estudo pediu a mais de 85.000 adultos do Reino Unido, com idades entre 37 e 73 anos, que usassem durante sete dias um acelerómetro no pulso - um dispositivo que regista o movimento corporal e os níveis de actividade. Depois, os investigadores acompanharam os desfechos de saúde de cada participante por pouco menos de oito anos.
O que o estudo encontrou sobre exercício e risco de doença cardíaca
Os resultados chamam a atenção.
Nas mulheres, cerca de quatro horas por semana de actividade física moderada a vigorosa - como caminhada rápida, corrida ligeira, ciclismo ou dança, que aumentam a respiração e a frequência cardíaca - estiveram associadas a um risco aproximadamente 30% mais baixo de doença coronária.
Nos homens, foram necessárias cerca de nove horas semanais desses mesmos tipos de actividade para observar uma redução semelhante.
O padrão manteve-se também entre pessoas que já viviam com doença cardíaca. O artigo estimou que mulheres diagnosticadas com doença coronária precisariam de cerca de 51 minutos de actividade física por semana para reduzir em 30% o risco de morrer por qualquer causa - enquanto os homens teriam de fazer cerca de 85 minutos de exercício.
À primeira vista, estes números podem surpreender, mas vão ao encontro de algo que cientistas do exercício suspeitam há anos.
Existe, além disso, uma explicação biológica clara que pode ajudar - pelo menos em parte - a perceber por que razão mulheres e homens obtêm respostas tão diferentes à actividade física.
Diferenças biológicas
Em geral, as mulheres apresentam níveis mais elevados de estrogénio do que os homens. Esta hormona influencia de forma relevante a maneira como o organismo reage ao exercício.
O estrogénio pode favorecer a utilização de gordura como combustível durante exercício de resistência e ajuda a manter os vasos sanguíneos saudáveis - em parte por apoiar as mitocôndrias produtoras de energia (as pequenas “centrais eléctricas” dentro das células que geram energia para funções vitais).
As mulheres tendem também a ter mais fibras musculares de contracção lenta, que são eficientes e resistentes à fadiga. Este tipo de músculo adapta-se bem a actividades constantes e sustentadas, exactamente as que a maioria das recomendações de exercício sugere.
Visto isto, a diferença no número de “minutos necessários” para benefícios cardíacos semelhantes entre mulheres e homens torna-se menos inesperada do que poderia parecer.
Porque estes dados são mais fiáveis (e o que significam)
Como a actividade foi medida por um dispositivo, e não com base na memória das pessoas sobre o que fizeram, os registos de actividade física são considerados mais precisos.
Importa também sublinhar que o estudo mostrou um benefício gradual. Em mulheres e em homens, mais actividade total semanal esteve associada a menor risco de doença coronária. Todas as pessoas ganham em mexer-se mais - a diferença está na quantidade de actividade necessária para “comprar” a mesma redução de risco.
O estudo não defende que as mulheres devam fazer menos exercício, nem sugere que os homens não possam alcançar benefícios equivalentes. O que mostra é apenas que os homens poderão precisar de acumular mais minutos semanais para lá chegar.
Limitações e cautelas na interpretação
Há limites importantes a considerar. A actividade foi registada apenas durante uma semana e, depois disso, os participantes foram acompanhados durante cerca de oito anos.
Além disso, por se tratar de um estudo observacional, podem existir factores que influenciaram parcialmente os resultados e que não foram considerados - por exemplo, o estado de menopausa (quando os níveis de estrogénio descem de forma significativa) ou o uso de terapêutica hormonal de substituição (que pode restaurar parte dos níveis de estrogénio). Estes factores podem alterar a forma como o corpo das mulheres responde ao exercício.
Vale ainda notar que os voluntários vieram do estudo UK Biobank. Estas pessoas tendem a ser mais saudáveis e menos desfavorecidas do que a população em geral - características que podem afectar a saúde cardíaca de base, o acesso a locais seguros para fazer exercício e o tempo disponível para actividade física. Tudo isto pode limitar até que ponto os resultados se aplicam a toda a gente.
Ainda assim, as conclusões levantam uma questão relevante sobre as recomendações actuais de exercício e sobre a necessidade (ou não) de as rever.
Recomendações de exercício
As orientações actuais da Organização Mundial da Saúde, da American Heart Association e do NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico) não distinguem entre sexos. Este novo estudo, porém, desafia essa neutralidade - ao sugerir que as recomendações podem não se aplicar de forma idêntica a todas as pessoas.
Durante décadas, a investigação em exercício foi feita sobretudo em homens, e assumiu-se muitas vezes que os resultados se aplicavam igualmente às mulheres. Com a chegada de melhores dados medidos por dispositivos, estamos a perceber que mulheres e homens podem ter retornos diferentes para o mesmo número de minutos activos.
Isto é importante porque mulheres e homens vivem a doença cardíaca de forma distinta - desde os sintomas até aos desfechos. Se a quantidade de exercício necessária para obter o mesmo benefício também não for igual, os conselhos deveriam reflectir essa realidade, mantendo-se ao mesmo tempo simples e práticos.
Não se trata de dizer às mulheres para fazerem menos exercício. A meta de referência de 150 minutos continua a ser útil - e muitas pessoas ainda não a cumprem. O que estes resultados sugerem é que as mulheres que atingem os objectivos actuais podem obter mais benefícios para a saúde do coração por minuto de exercício. Para quem tem dificuldade em encontrar tempo para treinos mais longos, isto é uma boa notícia.
Para os homens, a mensagem não é “duplique o seu tempo de ginásio”. A ideia é continuar a aumentar a actividade de formas que caibam na rotina semanal - sabendo que mais minutos totais tendem a trazer benefícios ainda maiores para a saúde cardíaca. Se diferentes tipos ou intensidades de exercício poderão ser mais eficientes para os homens é uma pergunta que fica para investigação futura.
Tanto os homens como as mulheres beneficiam claramente de actividade física regular - isso não está em causa. O que precisa de ser reconhecido é que existem diferenças biológicas evidentes que influenciam os ganhos que homens e mulheres obtêm a partir dos mesmos tipos de exercício.
A reabilitação cardíaca e os programas de referenciação para exercício costumam definir metas iguais para homens e mulheres. Esta investigação sugere que pode fazer sentido repensar estes programas e ajustar os objectivos ao ponto de partida de cada pessoa.
Mas, até a reabilitação cardíaca se tornar mais personalizada, a mensagem essencial mantém-se: mexa-se mais, sente-se menos. Se conseguir, aponte para os 150 minutos de exercício por semana. Se puder fazer mais, melhor.
Jack McNamara, Professor Auxiliar em Fisiologia do Exercício Clínico, University of East London
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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