Quando a quimioterapia de primeira linha falha num doente oncológico, os médicos tendem a recorrer a uma alternativa ajustada ao tipo de tumor. Mas e se ninguém conseguir dizer qual é esse tipo?
Em 1% a 3% dos casos de cancro acontece precisamente isto: surgem tumores metastáticos espalhados pelo organismo, sem que se encontre o ponto de partida.
Até agora, estes doentes ficavam praticamente sem um guião de referência quando o primeiro tratamento deixava de resultar. Um ensaio realizado em Xangai poderá, finalmente, ter fornecido uma opção com base em dados.
Um cancro que se esconde
O cancro de primário desconhecido (CUP) representa 1% a 3% de todos os diagnósticos oncológicos.
A definição assenta naquilo que os clínicos não conseguem localizar. Os tumores metastáticos são cancros que já se disseminaram para os gânglios linfáticos ou para outros órgãos. A origem, porém, permanece invisível.
Nem TAC, nem imagiologia PET, nem biópsias, nem testes genéticos conseguem identificar o tecido de origem.
Esta lacuna é particularmente grave, porque o tratamento do cancro costuma depender de saber que tipo de célula foi o ponto inicial do problema.
Nos doentes em que a primeira ronda de quimioterapia falha, a esperança de vida tem sido, tradicionalmente, contada em meses.
Uma revisão recente dos resultados em CUP concluiu que estes números quase não mudaram em décadas, mesmo quando os tratamentos para outros tipos de cancro se transformaram.
Um ataque triplo com medicamentos
O Dr. Zhiguo Luo, do Fudan University Shanghai Cancer Center, liderou o novo ensaio com colegas de anatomia patológica, radiologia e medicina nuclear.
No âmbito do estudo, a equipa juntou três fármacos muito diferentes num único esquema.
O primeiro é um anticorpo anti-PD-1, uma forma de imunoterapia que ajuda as células do sistema imunitário a reconhecer e a atacar os tumores.
O segundo componente foi o nab-paclitaxel, um quimioterápico formulado com partículas proteicas, concebido para facilitar a sua chegada directa ao tecido tumoral.
A completar o trio está o bevacizumab, que bloqueia os sinais usados pelos tumores para criar novos vasos sanguíneos.
Cada um destes medicamentos já tinha um historial de utilização em vários cancros. Porém, até este ensaio, ninguém tinha testado os três em conjunto contra CUP num contexto controlado.
No interior do ensaio de Fudan
Entre Junho de 2021 e Abril de 2024, a equipa incluiu 48 doentes cuja terapêutica de primeira linha tinha deixado de funcionar ou que não a conseguiam tolerar.
Trabalhos anteriores em CUP tinham experimentado diversas combinações de quimioterapia, quase sempre com resultados desapontantes, tal como descrito num artigo de 2020.
Os fármacos dirigidos (targeted) só beneficiaram uma fracção limitada dos casos, sobretudo aqueles com marcadores genéticos raros.
Tumores que reduziram
Os tumores diminuíram de forma mensurável em 54% dos doentes. O controlo da doença - isto é, pelo menos travar o crescimento tumoral - chegou a quase 96%.
Metade dos participantes passou 13.1 meses até a doença voltar a piorar, e a sobrevivência mediana atingiu 25.1 meses.
Num cancro com este grau de agressividade, estes valores merecem atenção. Os tratamentos mais antigos para CUP costumavam gerar taxas de resposta baixas e uma sobrevivência medida em meses, não em anos.
Neste cenário, uma sobrevivência mediana de 25 meses é, de facto, invulgar e relevante.
Os efeitos adversos foram frequentes, mas considerados manejáveis. Quase todos os doentes tiveram algum problema relacionado com o tratamento, mas a equipa não relatou interacções inesperadas entre os três fármacos.
Pistas nas células do sangue
Depois surgiu algo que a equipa não antecipava. Ao analisarem exames de sangue de rotina, observaram que os eosinófilos - um tipo de glóbulo branco - pareciam estar associados à resposta ao tratamento.
O indicador parecia acompanhar quem beneficiava mais. Contagens mais elevadas de eosinófilos aparentaram correlacionar-se com maior sobrevivência e melhor resposta tumoral.
Há muito que os investigadores suspeitam que esta ligação possa existir na imunoterapia, de forma geral.
Um estudo separado em cancro do rim apontou no mesmo sentido no ano passado. No entanto, até agora, ninguém o tinha documentado em doentes com CUP.
A equipa reconhece claramente o que ainda não consegue explicar. O CUP tem resistido a ser cultivado em laboratório ou a ser modelado em animais.
Mudanças no panorama do cancro
Antes deste ensaio, os doentes com CUP em segunda linha praticamente não tinham um padrão de cuidados. Os médicos combinavam esquemas caso a caso, muitas vezes com evidência limitada.
Os resultados de Fudan passam a oferecer algo diferente: uma opção com números concretos.
Assim, a uma pessoa informada de que tem cancro metastático, pode agora ser proposta uma alternativa mais definida quando o primeiro tratamento falha. Isto pode alterar a forma como a doença é gerida na prática clínica.
O impacto do ensaio é directo. Um cancro que oculta a sua origem deixa de obrigar os médicos a actuar às cegas quando a quimioterapia deixa de funcionar.
A combinação de três fármacos reduziu os tumores em mais de metade dos doentes avaliados e elevou a sobrevivência mediana para além de dois anos.
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