Escassez de enfermeiros e retenção no SNS
Luís Filipe Barreira, bastonário da Ordem dos Enfermeiros, enquadra o tema em duas frentes que considera decisivas: “Há dois desafios essenciais. Por um lado, a escassez de enfermeiros e a sobrecarga que têm exatamente por esta falta crónica de enfermeiros que temos no SNS e no país. Faltam 14 mil enfermeiros só no SNS. Por outro lado, a reconfiguração das competências”.
Na perspetiva de quem trabalha no terreno e também na esfera política, Cláudia Estevão, enfermeira e deputada na Assembleia da República, sublinha a necessidade de medidas concretas para valorizar a profissão e fixar pessoas no Serviço Nacional de Saúde: “A carreira de enfermagem precisa de muitos incentivos, é uma verdade, porque ao longo das últimas décadas tem sofrido vários desinvestimentos. O que é muito importante é conseguirmos encontrar soluções para reter os profissionais no SNS”.
Isabel Fernandes, igualmente enfermeira e deputada na Assembleia da República, reforça que o debate deve chegar às decisões públicas, salientando o espaço de intervenção ainda existente: “A Ordem entende que ao nível das políticas públicas, e bem, que há muito a fazer em relação ao papel da enfermagem no sistema de saúde português. Não podia deixar de partilhar mais desta ideia”.
Reconfiguração de competências e planeamento na rede
Sobre a evolução necessária do setor, Abel Paiva, da Comissão Nacional de Coordenação da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, chama a atenção para mudanças de fundo, associadas ao envelhecimento demográfico, defendendo uma orientação estratégica consistente: “Está a mudar o planeamento e a estratégia, porque é uma área muito importante face ao envelhecimento da população. Não há nada que mais possa prejudicar a boa solução do que medidas meramente conjunturais tomadas por impulso”.
Articulação entre área social e saúde
A Secretária de Estado da Ação Social, Clara Marques Mendes, aponta a importância de uma ligação efetiva entre respostas sociais e de saúde, assinalando a necessidade de intervenções diferenciadas consoante os casos: “A área social e da saúde têm efetivamente de estar articuladas, que é o que este Governo tem vindo a fazer. Há determinadas situações que exigem uma intervenção maior da parte social”.
Inteligência artificial e apoio ao trabalho de enfermagem
Do lado da modernização e das ferramentas de apoio, Luís Goes Pinheiro, dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, destaca o potencial da inteligência artificial como forma de potenciar a prática diária, nomeadamente na redução de tarefas repetitivas e no suporte à vigilância e decisão: “O conjunto de ferramentas comumente chamado de inteligência artificial vem dar um contributo para a alavancagem do trabalho dos enfermeiros, nomeadamente eliminando tarefas repetitivas, melhorando a sua ação em termos de vigilância, auxiliando a decisão do enfermeiro (...)”.
Início de carreira: desafios e acompanhamento dos jovens enfermeiros
A partir do Conselho de Jovens Enfermeiros da Ordem dos Enfermeiros, Rui Ribeiro, vice-presidente, descreve a resposta que estão a tentar construir para contrariar a falta de profissionais, sobretudo junto dos mais novos: “A enfermagem vive uma carência de enfermeiros. Estamos a tentar combater esse déficit tentando reter jovens enfermeiros com maior proximidade e tentar mostrar-lhes que não estão sozinhos”.
Também vice-presidente do mesmo conselho, Sofia Aguilar detalha as dificuldades sentidas na passagem do percurso académico para a prática profissional, chamando a atenção para o impacto dessa transição no arranque da carreira: “Os principais desafios de início de carreira são inúmeros, porque deparamo-nos com uma grande transição da componente académica para a componente profissional. O que os jovens enfermeiros sentem é uma dificuldade nas grandes mudanças de início de carreira”.
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