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Flavoalcaloides raros descobertos nas folhas de canábis

Investigadora de laboratório a analisar folha de planta de cannabis com gráfico em portátil ao lado.

Cientistas identificaram, pela primeira vez, substâncias químicas vegetais raras em folhas de canábis, revelando uma química escondida numa parte da planta que é frequentemente descartada.

O resultado acelera a procura de compostos úteis na canábis para lá das substâncias associadas ao “alto”.

Revelar uma química inesperada

Em amostras de folhas e flores de três estirpes comerciais, o material habitualmente negligenciado apresentou sinais que apontavam para uma história química mais complexa do que se supunha.

Magriet Muller, da Universidade de Stellenbosch (SU), registou compostos que ainda não tinham sido reportados em canábis.

A maior surpresa veio das folhas: foi aí que surgiram flavoalcaloides raros - compostos vegetais que combinam flavonoides com alcaloides que contêm azoto.

De forma inesperada, estes flavoalcaloides apareceram sobretudo numa única estirpe, em vez de estarem distribuídos pelas três, o que apanhou os investigadores de surpresa.

Este padrão restrito torna a descoberta simultaneamente promissora e limitada, levantando uma questão mais ampla sobre quanto valor poderá estar escondido nos resíduos de canábis.

Compostos raros vêm à tona

No conjunto das três estirpes, a equipa identificou de forma preliminar 79 compostos, incluindo 16 flavoalcaloides agrupados em quatro classes relacionadas.

Várias das substâncias agora registadas pertenciam à família dos flavonoides, compostos comuns nas plantas e associados à cor e aos mecanismos de defesa.

Ainda assim, os flavoalcaloides destacaram-se porque a natureza os produz raramente, o que os torna pouco frequentes.

A maioria das plantas contém misturas altamente complexas de compostos fenólicos e, embora os flavonoides ocorram amplamente no reino vegetal, os flavoalcaloides são muito raros na natureza”, afirmou Muller.

Essas moléculas raras concentraram-se sobretudo nas folhas de uma das estirpes, o que tornou mais difícil atribuir o sinal a simples “ruído” de fundo.

Olhar para além da flor

As folhas recebem muito menos atenção do que as flores de canábis; no entanto, os sinais mais raros surgiram precisamente nas folhas de uma estirpe, e não de forma consistente em todas as amostras.

A química das plantas varia frequentemente consoante o tecido. Isso acontece porque folhas, flores, raízes e caules enfrentam ameaças diferentes e constroem defesas distintas.

Para produtores e investigadores, este detalhe significa que o lote considerado de menor valor pode estar longe de ser quimicamente simples. No estudo, Muller recorreu à cromatografia líquida bidimensional.

Trata-se de uma técnica de separação que “ordena” misturas químicas em dois passos - permitindo separar compostos que, de outra forma, se sobreporiam.

A equipa combinou essa separação com espectrometria de massa de alta resolução, que mede fragmentos com tal precisão que permite estimar fórmulas.

Uma separação eficaz possibilitou isolar os flavoalcaloides raros dos flavonoides muito mais abundantes.

Isto é relevante porque sinais fortes de compostos comuns podem esconder sinais raros e aumentar o número de substâncias por identificar.

As estirpes não são todas iguais

Uma estirpe comercial apresentou o sinal mais forte de flavoalcaloides nas folhas, enquanto as outras duas se mostraram muito mais semelhantes entre si.

Esse padrão desigual reflete um problema bem conhecido na ciência da canábis: plantas com rótulos semelhantes podem diferir de forma acentuada no interior das suas células.

Seleção genética, ascendência híbrida e condições de cultivo podem alterar a mistura química, ao aumentar ou reduzir a expressão de genes da planta.

O tamanho reduzido da amostra mantém a conclusão num âmbito estreito, mas a diferença entre apenas três estirpes torna a variação difícil de ignorar.

Promissor, mas ainda por testar

Potencial médico não equivale a prova médica, e este estudo não testou os compostos recém-detetados em pessoas, animais ou células.

Impressões digitais químicas não são efeitos farmacológicos; por isso, ainda não se sabe se estes compostos das folhas reduzem inflamação, atrasam o cancro ou beneficiam doentes.

Mesmo assim, o perfil químico fornece alvos concretos para isolar e testar, antes de alguém tratar sinais raros como pistas clínicas.

Para lá dos canabinóides famosos

A investigação sobre canábis concentra-se muitas vezes nos canabinóides - substâncias que interagem com o sistema de sinalização do organismo.

Estes compostos podem influenciar humor, dor, apetite ou inflamação. No entanto, a canábis também produz outras moléculas capazes de moldar o aroma, a cor, a defesa da planta e potenciais efeitos biológicos.

Trabalho anterior sobre as canflavinas - flavonoides da canábis que, em modelos de laboratório, podem afetar vias de inflamação - já tinha mostrado como a química não canabinóide pode ter interesse médico.

A descoberta nas folhas acrescenta uma classe ainda mais rara a esse quadro mais amplo, sem sugerir que todos os compostos venham a ser úteis.

Os resíduos podem ter valor

Após a colheita, as folhas são muitas vezes tratadas como material de menor prioridade. A identificação de compostos raros desloca a questão económica de uma simples eliminação para a necessidade de triagem cuidadosa.

A nossa análise volta a destacar o potencial medicinal de material da planta de Cannabis, atualmente considerado resíduo”, disse o Professor André de Villiers, da SU.

Se investigação futura confirmar atividade útil, os produtores poderão separar folhas por estirpe, química e finalidade, em vez de as tratar como um fluxo de sobras.

Os controlos de qualidade continuariam a ser essenciais, porque um composto encontrado numa estirpe não pode ser assumido como presente em todas as plantas de canábis.

Limitações do estudo e investigação futura

Há uma condição importante associada às principais afirmações do artigo: os flavoalcaloides foram identificados de forma provisória.

Isto significa que os instrumentos corresponderam fórmulas prováveis e padrões com base em moléculas fragmentadas, mas continuam a ser necessárias amostras purificadas para confirmar as estruturas exatas.

Alguns grupos de alcaloides - porções com azoto que podem alterar o comportamento biológico - não puderam ser atribuídos com os dados disponíveis.

Assinalar limites com clareza torna o resultado mais útil, e não menos, porque indica com precisão onde devem começar as próximas experiências.

A descoberta reposiciona as folhas de canábis como material que vale a pena testar, por conter flavoalcaloides raros, diferenças marcadas entre estirpes e compostos fenólicos negligenciados.

Trabalho futuro pode mapear mais estirpes, validar as estruturas e avaliar efeitos biológicos. Mas a mensagem atual é inequívoca: o material considerado resíduo pode, ainda assim, ter valor científico.

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