A maioria de nós já ouviu dizer que o intestino está repleto de bactérias que ajudam na digestão, na imunidade e até no humor. O que comemos e bebemos influencia directamente essa comunidade microbiana.
Os lacticínios ficam muitas vezes no centro desta discussão porque fornecem nutrientes e, nalguns casos, culturas vivas - mas os investigadores nem sempre concordam quanto ao impacto que têm. Um estudo cuidadoso, que recolheu amostras directamente da mucosa do cólon, acrescenta pistas relevantes.
Muitos estudos sobre alimentação baseiam-se em análises de fezes. Isso é útil, mas nem sempre representa as bactérias que permanecem aderidas à parede intestinal.
Este projecto focou-se precisamente nesses microrganismos “colados” à parede, em contacto directo com os nossos tecidos. O objectivo foi simples: verificar se hábitos quotidianos de consumo de lacticínios se reflectem nessa comunidade bacteriana.
Compreender o microbioma
Pense no microbioma intestinal como um bairro muito activo com biliões (triliões, em termos anglo-saxónicos) de microrganismos - sobretudo bactérias, mas também alguns fungos e vírus - que vivem principalmente no intestino grosso.
Estes micróbios ajudam a decompor componentes dos alimentos que o nosso corpo não consegue digerir sozinho, em especial a fibra, produzindo ácidos gordos de cadeia curta como o butirato. Esse composto alimenta as células do cólon e pode ajudar a manter a inflamação sob controlo.
Além disso, a microbiota “treina” o sistema imunitário, participa na produção de certas vitaminas e comunica com o sistema nervoso através de sinais químicos. Daí surgir a ideia da “sensação visceral”.
O microbioma de cada pessoa é diferente, moldado por factores como o nascimento, a alimentação, o ambiente, o sono, o stress e medicamentos como os antibióticos.
Em geral, uma maior diversidade é um bom sinal: mais espécies tende a significar uma comunidade mais estável e resistente.
Não existe um microbioma “perfeito”, mas é possível orientá-lo numa direcção mais saudável com refeições equilibradas, actividade física regular, sono suficiente e uso prudente de antibióticos quando são clinicamente necessários.
Aprender como os lacticínios moldam as bactérias intestinais
Participaram adultos que iam realizar colonoscopias de rotina num hospital de veteranos em Houston. O cólon destes participantes parecia normal, e nenhum apresentava condições importantes que pudessem baralhar a interpretação dos resultados.
Durante o procedimento, os médicos recolheram pequenas biópsias - com o tamanho aproximado de uma cabeça de alfinete - directamente da mucosa do cólon, para análise em laboratório.
No total, a equipa avaliou 97 biópsias provenientes de 34 pessoas. Antes do exame, os participantes preencheram um questionário alimentar sobre o ano anterior, incluindo consumo de leite, queijo, iogurte e ingestão total de lacticínios.
Em laboratório, os investigadores recorreram à sequenciação do rRNA 16S para identificar quais as bactérias presentes e em que quantidades.
Foram usadas duas métricas principais. A “diversidade alfa” descreve quantos tipos de bactérias existem numa amostra individual. A “diversidade beta” mede o grau de diferença entre as comunidades bacterianas de duas pessoas.
Na análise estatística, ajustou-se para idade, tamanho corporal, tabagismo, consumo de álcool, condições de saúde, qualidade global da dieta e a zona do cólon de onde vinha a amostra. Estes ajustes ajudam a distinguir associações prováveis de efeitos criados por outros factores.
O que os cientistas observaram
Em geral, quem bebia mais leite - e quem consumia mais lacticínios no total - tendia a apresentar maior diversidade alfa nas bactérias aderidas à mucosa do cólon.
Também surgiram diferenças de diversidade beta entre consumidores mais elevados e mais baixos de lacticínios totais, leite, queijo e iogurte, sugerindo que os padrões de ingestão se associaram a alterações mais amplas na estrutura da comunidade microbiana.
Duas bactérias conhecidas destacaram-se. A Faecalibacterium é frequentemente considerada benéfica porque produz butirato, um ácido gordo de cadeia curta que serve de combustível para as células do cólon e pode atenuar a inflamação. As pessoas com maior consumo de lacticínios totais e de leite apresentaram mais Faecalibacterium na mucosa.
A Akkermansia, muitas vezes relacionada com uma barreira intestinal mais robusta e melhores marcadores metabólicos, também surgiu em níveis mais elevados entre quem consumia mais leite.
Lacticínios e bactérias: leite, queijo e iogurte
Quando a equipa teve em conta a lactose da dieta, as ligações entre leite e microbiota enfraqueceram. Isto aponta para a lactose como um possível prebiótico - alimento para certas bactérias - que pode favorecer o crescimento de microrganismos específicos.
A observação encaixa num dado nutricional simples: o leite contém lactose, enquanto muitos queijos curados têm muito pouca.
O queijo, contudo, não replicou o padrão observado com o leite. Um maior consumo de queijo associou-se a níveis mais baixos de algumas bactérias nos modelos ajustados, incluindo Bacteroides e Subdoligranulum.
Os cientistas não classificam a Bacteroides como totalmente “boa” ou “má”; o efeito depende da espécie e do contexto.
A Subdoligranulum consegue produzir butirato, o que normalmente é considerado positivo. Por isso, níveis mais baixos com maior consumo de queijo levantam dúvidas sobre que componentes do queijo poderão estar a alterar o equilíbrio. Transformar leite em queijo muda o perfil de nutrientes de formas que podem ser relevantes.
Quanto ao iogurte, o consumo médio neste grupo foi muito baixo - aproximadamente alguns goles por dia - e, por essa razão, o estudo não conseguiu tirar conclusões sólidas.
Os investigadores não observaram uma associação clara entre iogurte e diversidade. Além disso, culturas típicas do iogurte, como Lactobacillus e Bifidobacterium, apareceram em níveis muito baixos na mucosa do cólon destas amostras.
A mucosa do cólon como fonte de pistas
A maioria dos dados divulgados nesta área vem de amostras de fezes, que mostram o que o corpo elimina. Já a mucosa - a superfície interna do intestino - pode apresentar um retrato diferente.
Ao estudar a comunidade aderida à parede, obtém-se uma visão mais próxima dos microrganismos que interagem com a barreira intestinal e com células do sistema imunitário. Em vez de reflectir apenas o que está presente nas fezes, capta o que está em contacto directo com a superfície mucosa.
Bactérias intestinais, lacticínios e saúde
Se tolera lacticínios e já tem o hábito de beber leite, é possível que a comunidade microbiana na superfície do intestino seja mais diversa.
Se o seu principal lacticínio for o queijo, o efeito provável dependerá do tipo de queijo, do padrão alimentar global - sobretudo a quantidade de fibra - e do seu microbioma individual.
Se tem baixa tolerância à lactose, fibras prebióticas de alimentos como feijão, aveia, bananas, cebola e espargos podem alimentar bactérias benéficas por outra via.
No conjunto, diferentes alimentos lácteos parecem influenciar de forma distinta a comunidade aderida à mucosa intestinal.
Estudos maiores, mais prolongados e com grupos mais diversos ajudarão a testar quais componentes dos lacticínios têm efeitos específicos - e em quem. Para já, o que põe no copo e no prato deixa marcas mensuráveis no intestino.
O estudo completo foi publicado na revista Nutrients.
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