Os cães-guia transformam vidas, mas prepará-los para esse papel está longe de ser um processo simples. Todos os anos, as organizações dedicam enormes quantidades de tempo, dinheiro e esforço a formar cães capazes de orientar pessoas com deficiência visual.
Apesar disso, muitos cachorros promissores nunca chegam à fase final. Uns revelam-se demasiado distraídos em locais cheios de gente. Outros reagem mal a ruídos intensos ou a situações de maior stress.
Mesmo um cão sociável e com excelente obediência pode não aguentar a pressão do trabalho real de cão-guia. Agora, investigadores defendem que o ADN pode ajudar a resolver parte deste desafio.
Um novo estudo indica que os testes genéticos podem permitir identificar, antes sequer de começar o treino dispendioso, quais os cães com maior probabilidade de sucesso.
Estas conclusões podem vir a mudar a forma como os cães-guia são escolhidos e preparados no futuro.
O treino tem riscos
Os programas de treino de cães-guia lidam, há muito, com uma realidade difícil: a maioria dos cães que entram nestes programas não os conclui com sucesso.
Os investigadores estimam que 60% dos cães falham antes de serem colocados com um utilizador. Em muitas situações, a causa do insucesso está mais no comportamento do que em problemas de saúde física.
O impacto financeiro é muito elevado. Um cão excluído durante a formação pode custar às organizações mais de 12 000 dólares.
Já um cão-guia totalmente treinado pode representar um custo próximo dos 50 000 dólares até ser colocado com uma pessoa que precisa desse apoio. Por isso, conseguir prever mais cedo faz uma enorme diferença.
“Se conseguirmos perceber antes de serem treinados se eles [vão ter sucesso], isso poupa muito tempo e muito dinheiro, e também vai aumentar o número de cães-guia disponíveis para ajudar as pessoas”, afirmou Breno Fragomeni, professor associado de ciência animal na University of Connecticut.
O comportamento explica a maioria das reprovações
Entre 65% e 77% das reprovações em cães-guia acontecem por traços comportamentais.
Estes cães podem ficar nervosos com desconhecidos, excitar-se em excesso perto de outros cães, ou ser sensíveis a ruídos repentinos. Uma única reação inadequada no trânsito ou numa rua citadina cheia pode tornar o trabalho de guia inseguro.
Os treinadores já avaliam cachorros através de testes comportamentais, observando como respondem a sons, stress e distrações.
Ainda assim, antecipar como um cachorro muito novo se irá comportar mais tarde continua a ser difícil. Essa incerteza levou os investigadores a procurar respostas mais profundas na genética.
O ADN passa para o centro da investigação
A equipa de investigação reuniu cientistas da University of Connecticut, do International Working Dog Registry e de organizações parceiras.
O objetivo foi perceber se a seleção genómica poderia melhorar a criação e seleção de cães-guia. Esta abordagem já é central em programas de melhoramento de gado bovino, onde o ADN ajuda a prever características valiosas.
Os cientistas recolheram dados comportamentais de 4 841 Labrador Retrievers entre 2008 e 2019. Estes cães foram avaliados com a Behavior Checklist, um sistema amplamente usado por organizações de cães-guia.
A checklist mede aspetos como ansiedade, medo, reações a desconhecidos e sensibilidade ao ruído. Para cada comportamento, os cães recebem pontuações de um a cinco.
O ADN prevê o sucesso
Dentro do grupo total, 1 076 cães também foram sujeitos a sequenciação genómica. A partir desse material, os investigadores reduziram a informação a cerca de 94 000 marcadores genéticos considerados úteis.
Em seguida, a equipa colocou lado a lado dois sistemas de previsão. Um baseava-se apenas na informação de pedigree familiar. O outro juntava pedigree e dados genómicos, através de um método chamado single-step GBLUP.
“Se eu tiver um cão com muitos cachorros e olhar para o desempenho desses cachorros, esse desempenho seria um bom indicador da genética do pai”, observou Fragomeni.
As características-chave são as mais relevantes
Os investigadores centraram-se em 17 traços comportamentais fortemente associados ao sucesso em cães-guia.
Entre esses traços estavam a ansiedade em situações novas, a sensibilidade ao ruído, o medo de desconhecidos, a distração provocada por outros cães e a capacidade de recuperação após acontecimentos stressantes.
Uma característica considerada importante foi a auto-modulação, que mede a rapidez com que um cão volta a acalmar depois de ficar excitado ou stressado.
Estes comportamentos influenciam diretamente a capacidade de um cão-guia trabalhar de forma segura e consistente em ambientes públicos movimentados.
Um cão que não consegue ignorar outro cão no passeio, ou que não recupera rapidamente após um ruído forte, pode não ser fiável quando está a guiar um utilizador com deficiência visual.
A genética teve influência
O estudo concluiu que a genética tem, de facto, impacto no comportamento, embora não tão forte como acontece com algumas características físicas.
As pontuações de herdabilidade variaram entre 0,08 e 0,21, consoante o comportamento. Isto indica que o ambiente continua a moldar uma grande parte da personalidade e das reações do cão.
Ainda assim, a contribuição genética foi suficiente para melhorar a precisão das previsões.
Os investigadores consideram que estes valores relativamente baixos podem refletir o facto de as organizações de cães-guia já terem passado décadas a selecionar cães com temperamentos mais adequados.
Com o tempo, esse trabalho reduziu parte da variação genética existente na população.
Os dados genómicos aumentaram a precisão
O resultado mais marcante surgiu quando os investigadores adicionaram informação genómica ao modelo. Nos 17 traços, os dados genómicos aumentaram a precisão das previsões face ao uso exclusivo do pedigree.
As previsões baseadas em pedigree tiveram, em média, uma precisão de 0,46. As previsões genómicas atingiram, em média, 0,50. As melhorias oscilaram entre 4% e 14%.
À primeira vista, estes ganhos podem parecer pequenos, mas mesmo aumentos modestos têm grande peso em programas de melhoramento e seleção animal.
A maior melhoria verificou-se no traço “socialmente inadequado com pessoas”.
“Se eu tiver dados genómicos, não preciso de esperar que os animais tenham descendência para perceber se vão ser bons [cães-guia]. Só com dados genómicos, consigo prever quão bem todos esses animais vão desempenhar-se”, diz Fragomeni.
Limitações do estudo
Os investigadores discutiram de forma aberta as limitações do trabalho.
Em comparação com programas de melhoramento em animais de produção, o conjunto de dados continua a ser pequeno. Estudos em vacas leiteiras envolvem frequentemente centenas de milhares de animais, enquanto este projeto incluiu pouco mais de 1 000 cães com genótipo.
Além disso, o comportamento é extremamente complexo. Ao contrário de traços simples controlados por poucos genes, o comportamento resulta de muitas influências genéticas pequenas distribuídas por todo o genoma.
Essa complexidade torna a previsão mais difícil. Ainda assim, a equipa vê este estudo como um ponto de partida relevante.
Os primeiros meses do cachorro contam
O estudo também sublinhou a importância dos primeiros quatro meses de vida.
Este período inicial de socialização influencia fortemente o comportamento futuro. Normalmente, os cachorros passam esta fase com voluntários que os criam temporariamente, e as experiências podem variar bastante entre casas.
Um cachorro bem socializado pode lidar melhor com stress mais tarde. Experiências iniciais pobres podem deixar desafios comportamentais duradouros.
Isto significa que a genética, por si só, não determina o sucesso. O ambiente continua a ter um papel central.
Os investigadores acreditam que os melhores resultados virão da combinação entre uma seleção genética mais eficaz e um treino e socialização precoces de elevada qualidade.
À medida que os testes de ADN se tornam mais baratos, a equipa espera que a precisão das previsões continue a melhorar.
Melhores previsões no horizonte
Cada vez mais organizações de cães-guia estão a contribuir com dados para bases partilhadas, como o International Working Dog Registry.
Conjuntos de dados maiores deverão ajudar os cientistas a identificar padrões genéticos mais robustos ao longo do tempo.
“O artigo é muito importante por esse motivo, porque agora temos um exemplo funcional nessa população específica”, assinalou Fragomeni.
“Mostra o potencial dessas ferramentas, e esperamos que esses números aumentem muito, muito mais depressa.”
A tecnologia poderá, eventualmente, ir além dos cães-guia.
“Eventualmente queremos encontrar uma forma de as pessoas poderem genotipar os seus animais de estimação e perceber se estão em maior ou menor risco de desenvolver cancro”, disse Fragomeni.
“Isso vai mudar a forma como os tratam ao longo da vida e se os deixam reproduzir ou não.”
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