Um resultado de imagiologia que levante suspeitas no pâncreas leva, quase sempre, ao passo seguinte: uma biópsia com uma agulha longa, orientada por ecografia. É um procedimento desconfortável, com riscos, e mesmo assim falha em cerca de um em cada cinco casos.
Em Portland, uma equipa perguntou-se se o sangue não traria já uma resposta mais fiável. Os tumores libertam partículas de forma contínua - e um chip do tamanho de uma unha poderá ter encontrado uma forma de as apanhar.
Teste do cancro do pâncreas
Stuart Ibsen, Ph.D., professor associado de engenharia biomédica na Escola de Medicina da Oregon Health & Science University (OHSU), conhece bem este desafio por duas vias.
"O pâncreas está localizado profundamente no interior do corpo. Não é como um cancro da pele que se vê ou um nódulo que se consegue apalpar", disse Ibsen.
É precisamente por isso que o cancro do pâncreas é tão frequentemente identificado tarde. Ainda hoje, a taxa de sobrevivência aos cinco anos ronda os 13%, segundo dados recentes - uma das probabilidades mais desfavoráveis em oncologia.
Partículas no plasma
Os tumores não são “limpos”. À medida que as células cancerígenas se multiplicam, libertam para a corrente sanguínea milhares de milhões de pequenos pacotes envolvidos por membrana.
Estas nanopartículas transportam fragmentos da célula de origem - proteínas, pedaços de ADN, e praticamente tudo o que o tumor estiver a produzir.
Em tecido saudável, esses pacotes fazem parte do tráfego celular normal. Já as células cancerígenas libertam-nos em quantidade muito superior e, com isso, o que o tumor produz acaba por circular no sangue.
O difícil é capturá-los. As partículas tumorais viajam misturadas com as do próprio organismo e ficam em minoria face a partículas semelhantes vindas de células saudáveis. Durante anos, a tecnologia de biópsia líquida tem tentado separar sinais de cancro desse “ruído” biológico.
Chip do tamanho de uma unha captura cancro
O laboratório de Ibsen construiu um chip pequeno. O plasma do sangue passa por um conjunto de eléctrodos por onde circula uma corrente eléctrica. As nanopartículas acumulam-se à superfície dos eléctrodos, enquanto o líquido em redor é lavado.
Num segundo passo, aplicam-se corantes fluorescentes para evidenciar biomarcadores específicos de cancro - incluindo o glicipicano-1, uma proteína que tumores do pâncreas produzem em excesso, e fragmentos soltos de ADN provenientes do cancro. Onde o corante se fixa, os eléctrodos iluminam-se.
"Quanto mais biomarcadores de cancro houver, mais brilhantes ficam os eléctrodos no chip", disse Ibsen. Do início ao fim, o processo demora 15 minutos - sem centrifugação, sem reacções, sem esperar que células cresçam em cultura.
36 doentes testados às cegas
Para este estudo, a equipa de Ibsen recolheu plasma de 36 doentes acompanhados através da unidade de endoscopia de intervenção da OHSU. Alguns tinham cancro confirmado.
Outros apresentavam problemas benignos, como pancreatite, ou lesões pré-cancerosas que ainda não tinham evoluído para malignidade.
Um ponto-chave: os investigadores utilizaram o chip sem saber a que doente correspondia cada amostra. O desenho às cegas tornou a análise mais rigorosa. Ou o chip separava plasma cancerígeno de plasma não cancerígeno, ou não separava.
Chip supera biópsia invasiva
Os resultados surpreenderam a equipa. Em 97% dos casos, o chip classificou correctamente as amostras com cancro face às restantes. Este foi o principal achado - e ficou acima do teste padrão com o qual estava a ser comparado.
O teste padrão, a aspiração por agulha fina guiada por ecoendoscopia, é invasivo. Uma agulha fina é passada através da parede do tubo digestivo para recolher uma amostra de tecido do pâncreas. Quando executado em boas condições, identifica cancro do pâncreas em cerca de 79% das situações.
Uma simples colheita de sangue exige do doente apenas um braço e alguns minutos. Num estudo às cegas, superar um procedimento invasivo por quase 20 pontos percentuais chama inevitavelmente a atenção.
Distinguir tipos de tumor
Nos mesmos dados surgiu uma surpresa adicional. O chip não se limitou a detectar cancro. Também conseguiu separar tumores malignos de lesões pré-cancerosas - massas que, na imagiologia, podem parecer quase idênticas a um tumor, mas que ainda não se tornaram malignas.
Até este estudo, nenhum teste sanguíneo tinha traçado essa fronteira de forma tão clara. E é uma distinção que a imagiologia, por si só, costuma não conseguir fazer, razão pela qual alguns doentes acabam por ir para cirurgia apenas para esclarecer o diagnóstico.
"A informação do nosso teste ao sangue pode ajudar o cirurgião a perceber se isto é algo que realmente precisa de ser removido", disse Ibsen. Para os doentes, esta diferença pode significar escolher entre uma operação e apenas vigilância.
Prazo para uso clínico
Os 36 participantes já tinham uma condição pancreática suspeita - não se tratava de um grupo de rastreio populacional. Além disso, resultados de um único centro podem alterar-se quando replicados noutros locais. Ensaios maiores terão de confirmar o valor de 97% antes de o teste poder ser adoptado de forma mais ampla.
Ibsen estima que a técnica esteja a cerca de cinco anos da utilização clínica. Esse período inclui a validação, o trabalho regulatório e o aumento de escala de fabrico necessários para retirar o chip do laboratório de investigação e colocá-lo em utilização hospitalar.
Futuro do teste do cancro do pâncreas
Há muito que o cancro do pâncreas é o tipo de doença que os médicos receiam não conseguir detectar a tempo. Um teste ao sangue simples, capaz de distinguir cancro de doenças semelhantes em 15 minutos, altera a forma como se fala de detecção precoce.
A mesma estratégia poderá também aplicar-se a outros cancros que libertam partículas para a corrente sanguínea, abrindo caminhos onde os diagnósticos baseados em imagiologia têm tido dificuldades, como descreve uma revisão recente do campo.
Por agora, o chip continua no laboratório da OHSU, a ser usado em estudos de validação. O ponto central mantém-se: partículas libertadas pelo cancro, capturadas num microchip, conseguem dizer aos médicos aquilo que uma biópsia invasiva muitas vezes não consegue.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário