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SNS: a espera em saúde mata e o problema é de modelo

Mulher preocupada consulta documentos na sala de espera de um hospital com outras pessoas sentadas.

A saúde é, há muito, a maior inquietação dos portugueses. Não é novidade: inquérito após inquérito, aparece no topo das prioridades. Ainda assim, o diagnóstico mantém-se e o tratamento continua por fazer. O Serviço Nacional da Saúde (SNS) não padece de falta de dinheiro; padece do modelo. Enquanto muitos evitam dizê-lo em voz alta - e, sobretudo, agir em conformidade -, a espera prolonga-se. E, em saúde, esperar mata.

Listas de espera no SNS: números que não são abstratos

Os dados mais recentes voltam a expor uma realidade desconfortável. No final de 2025, a lista de espera para cirurgia cardíaca aumentou 40%. Quase 60% desses doentes já aguardavam para lá do prazo clinicamente recomendado. A lista de espera oncológica cresceu 9%. E mais de um milhão de utentes permanecem à espera da primeira consulta.

Isto não são números frios. Entre 2021 e 2025, quase 330 doentes morreram enquanto aguardavam cirurgia cardíaca. 330. Um registo de óbitos que nenhum ministério conseguiu impedir.

Mais financiamento, menos atividade: o que falha no modelo

Em 2025, o SNS fez menos do que no ano anterior: menos cirurgias, menos internamentos e menos primeiras consultas. Tudo isto num cenário em que os hospitais receberam cerca de €13 mil milhões do orçamento - sempre crescente - do SNS, beneficiando de mais 5,3% de financiamento.

A ideia de que o investimento, por si só, resolve, foi testada até ao limite - em particular durante os Governos de António Costa. O “Health at a Glance 2025” é claro: Portugal despende 10,2% do PIB em Saú­de, mas continua sem conseguir transformar mais despesa em melhores cuidados. O bloqueio não é financeiro. É estrutural. É de modelo. E também de método.

O desenho atual assenta numa premissa já ultrapassada: o SNS como prestador único, ou quase exclusivo. O privado e o social entram em cena apenas quando o público falha. A palavra “complementaridade” funciona bem nos discursos, mas tem um problema sério: implica que o utente espere pela falha do Estado para só depois aceder a quem tem capacidade de resposta. Muitas vezes, quando esse cuidado chega, chega tarde. E, como concluiu o “Barómetro da Saúde 2025”, quando o SNS colapsa, o sector privado não consegue absorver a procura sem degradar a sua própria resposta.

A complementaridade não resolve. Limita-se a gerir o colapso.

Seguros de saúde: fuga silenciosa e desigualdade

Ao mesmo tempo, cresce de forma contínua o número de portugueses com seguro de saúde. Esta saída discreta conta duas histórias: a falência do SNS enquanto resposta universal e uma injustiça evidente. Estas pessoas pagam duas vezes - através dos impostos e através do seguro. Mas a desigualdade maior é outra: elas têm alternativa, enquanto os mais vulneráveis ficam entregues a um sistema em colapso. Isto não é um sistema; é desigualdade com orçamento recorde.

SUA Saúde e a Iniciativa Liberal: SNS em rede desde a primeira linha

A solução é transformar o SNS de serviço em sistema, mobilizando desde o primeiro momento toda a capacidade instalada, pública, privada ou social. Não em hierarquia. Em rede

A saída passa por transformar o SNS de serviço em sistema, acionando desde o primeiro momento toda a capacidade instalada - pública, privada ou social. Não em pirâmide. Em rede. Não depois de o Estado falhar, mas logo na primeira linha. Foi precisamente isso que a Iniciativa Liberal apresentou em 2022 com o SUA Saúde, propondo uma nova Lei de Bases da Saúde.

Passaram três anos. A urgência não diminuiu. As listas de espera aumentaram. E nenhum outro partido acompanhou: nem a esquerda, que recusa os privados como parte da solução, nem a direita, que continua a repetir o mesmo catecismo - SNS no centro, complementaridade para os outros. Fórmulas que soam a reforma, mas que não alteram nada.

O falso consenso de manter tudo como está tem um preço. Em saúde, esse preço mede-se em vidas. Reformar é urgente. Continuar à espera é uma opção política. Inaceitável - por ser uma escolha com consequências mortais.

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