Passar tempo em ambientes naturais não serve apenas para levantar o ânimo. Um vasto novo estudo internacional indica que isso também altera a forma como as pessoas se sentem em relação ao próprio corpo.
Isto poderá ajudar a explicar porque é que quem passa mais tempo em contacto com a natureza tende a relatar uma maior satisfação com a vida.
O efeito mantém-se em todas as idades e identidades de género e, com poucas excepções, em culturas de todo o mundo.
A investigação baseia-se no Body Image in Nature Survey (BINS), um projecto colaborativo concebido por investigadores, que reuniu 253 cientistas a trabalhar em conjunto em 65 nações.
A análise abrange 50.363 participantes com idades entre os 18 e os 99 anos, provenientes de 58 países, e que falavam 36 línguas diferentes.
O estudo foi liderado por Viren Swami, professor de psicologia social na Anglia Ruskin University, em colaboração com colegas da Universidade de Viena e da Karl Landsteiner University of Health Sciences, na Áustria.
Tempo na natureza e o corpo
Há muito que se sabe que estar na natureza está associado a melhor saúde mental e a um maior bem-estar. O que permanecia bem menos claro era o mecanismo concreto através do qual esses benefícios se produzem.
Este trabalho procurou testar uma hipótese específica: o contacto com a natureza promove aquilo a que os investigadores chamam experiências positivas de viver no mundo e de o sentir através do corpo.
Em termos simples, a natureza faz com que as pessoas se sintam melhor em relação ao próprio corpo. E essa melhoria da imagem corporal acaba por se traduzir numa maior satisfação com a vida.
No estudo, a “apreciação corporal” é definida como aceitar e respeitar o próprio corpo, rejeitando simultaneamente os ideais irrealistas de aparência promovidos pela cultura.
Investigações anteriores já tinham associado níveis elevados de apreciação corporal a uma melhor auto-estima, escolhas de vida mais saudáveis e menos sintomas de ansiedade e depressão.
Uma meta-análise de 72 estudos concluiu que a apreciação corporal estava positivamente relacionada com o bem-estar geral, incluindo a satisfação com a vida.
O novo estudo vem completar este quadro ao mostrar de que forma o contacto com a natureza ajuda, desde a origem, a gerar apreciação corporal, através de duas vias psicológicas distintas.
Autocompaixão e apreciação corporal
A via mais forte das duas passa pela autocompaixão, em particular pelo que os autores designam “resposta compassiva a si próprio”.
A natureza favorece aquilo que a psicologia descreve como “silêncio cognitivo”, um estado de atenção sem esforço e sem direcção específica.
Os estímulos suaves dos ambientes naturais incentivam o que os investigadores chamam “deliberação-sem-atenção”.
Esse estado torna mais fácil, sem esforço, adoptar abordagens conscientes perante emoções difíceis, aumentar a bondade para consigo próprio e sentir uma maior ligação aos outros.
Em suma, a natureza ajuda a limpar o ruído mental e, com essa clareza, as pessoas tendem a tratar-se com mais gentileza.
Essa autocompaixão, por sua vez, está fortemente associada a uma maior apreciação corporal.
Quando alguém consegue encarar as falhas físicas que acredita ter com compreensão, em vez de crítica, as ameaças à imagem corporal parecem menos intimidantes e a apreciação do corpo encontra espaço para crescer.
O papel da restauração mental
A segunda via identificada está ligada à restauração.
Os contextos urbanos exigem atenção sustentada e dirigida - orientar-se no trânsito, filtrar ruído, gerir exigências sociais. Com o tempo, isso esgota recursos cognitivos.
Em contraste, os ambientes naturais permitem recuperar dessa depleção, precisamente porque incluem estímulos que captam a atenção sem esforço, deixam a atenção dirigida descansar e apoiam aquilo que a Teoria da Restauração da Atenção descreve como o regresso a uma auto-regulação ideal.
O estudo verificou que as pessoas que se sentiram mentalmente restauradas durante a visita mais recente a um ambiente natural também tinham mais probabilidade de reportar níveis mais elevados de apreciação corporal.
A restauração não envolve apenas recuperação cognitiva: inclui também componentes de vitalidade e auto-confiança, que provavelmente contribuem para uma percepção mais positiva do próprio corpo.
A restauração percebida mostrou ainda um efeito directo e positivo na satisfação com a vida, possivelmente por reforçar a auto-eficácia e as emoções positivas.
Os investigadores avaliaram igualmente uma terceira via possível, associada à ligação à natureza. No entanto, os seus efeitos na apreciação corporal revelaram-se negligenciáveis, e a relação entre contacto com a natureza e ligação à natureza não foi estatisticamente significativa no conjunto total de dados.
Padrões consistentes em todo o mundo
O que torna estes resultados especialmente convincentes é a sua estabilidade em populações muito diferentes.
O modelo manteve-se em todas as identidades de género e em todos os grupos etários da amostra, e em todos excepto cinco grupos nacionais e três línguas analisadas.
Nos casos em que o modelo divergiu - nomeadamente na Índia, Brasil, Taiwan, Paquistão e Letónia -, o motivo foi, em geral, o comportamento distinto de vias individuais, e não uma quebra do padrão global.
No Brasil, por exemplo, as associações entre contacto com a natureza e tanto a autocompaixão como a restauração foram inesperadamente negativas.
Os autores assinalam que as epistemologias sobre o mundo natural e o significado que lhe é atribuído variam entre culturas, o que poderá ajudar a explicar algumas destas diferenças.
Depois de excluídos os grupos atípicos, foi possível obter um modelo invariável e bem ajustado em todos os restantes grupos nacionais.
“O que é impressionante é a consistência destes padrões entre países, idades e identidades de género, sugerindo que ligar-se à natureza ajuda as pessoas a construir relações positivas com os seus corpos de formas profundamente enraizadas na psicologia humana”, afirmou Swami.
Implicações mais amplas do estudo
As implicações vão além do bem-estar individual.
“Numa altura em que muitos países procuram formas acessíveis de melhorar o bem-estar, os nossos resultados sublinham o valor dos ambientes naturais como recursos importantes de saúde pública e reforçam a importância de usar evidência científica para orientar o planeamento, a educação e as políticas de saúde”, explicou Swami.
Isto constitui um argumento directo a favor de proteger e ampliar o acesso a espaços verdes e azuis, sobretudo em zonas urbanas densas, onde as exigências cognitivas e as barreiras ao acesso à natureza tendem a ser mais elevadas.
Os investigadores fazem questão de apontar limitações: os dados são transversais, pelo que não é possível confirmar causalidade, e a amostra inclina-se para populações mais escolarizadas e urbanas.
Ainda assim, a dimensão do conjunto de dados, o rigor da modelação estatística e a consistência dos resultados entre culturas conferem um peso invulgar às conclusões.
Afinal, o corpo poderá ser a ponte entre a natureza e uma vida boa.
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