Imagine a cena: está no consultório do seu médico com dor de garganta. A enfermeira pergunta: "Alguma alergia?" E, sem pensar duas vezes, responde: "Penicilina." É uma frase que repete há anos - talvez desde criança, talvez porque um dos seus pais lho disse. A enfermeira acena, regista e segue em frente.
O problema é que existe uma probabilidade elevada de não ser, de facto, alérgico(a) à penicilina. Entre 10% e 20% dos americanos dizem ter alergia à penicilina, mas menos de 1% tem mesmo.
Sou professora clínica associada de Farmácia, com especialização em doenças infecciosas. Investigo antibióticos e alergias a medicamentos, incluindo formas de perceber se as pessoas são realmente alérgicas à penicilina.
Aquilo que vejo na minha investigação é claro: estar incorretamente "rotulado" como alérgico(a) à penicilina pode impedir que receba o tratamento mais indicado e mais seguro para uma infeção. Além disso, pode aumentar o seu risco de resistência aos antimicrobianos - quando um antibiótico deixa de funcionar contra as bactérias.
A boa notícia é que, nos últimos anos, ficou muito mais simples apurar a verdade. Cada vez mais profissionais reconhecem que muitos registos de alergia à penicilina estão errados - e existem formas seguras e relativamente simples de confirmar qual é, afinal, o seu estatuto de alergia.
Um salvador constante
A penicilina - o primeiro antibiótico - foi descoberta em 1928, quando um médico chamado Alexander Fleming a extraiu de um tipo de bolor denominado penicillium. A sua utilização generalizou-se na década de 1940 para tratar infeções. A penicilina e antibióticos muito próximos, como a amoxicilina e a amoxicilina/ácido clavulânico (conhecida pela marca Augmentin), são frequentemente prescritos para infeções comuns, incluindo otites, faringite estreptocócica, infeções urinárias, pneumonia e infeções dentárias.
Os antibióticos da família da penicilina são considerados de espectro estreito, ou seja, atuam sobre tipos específicos de bactérias. Já quem declara ter alergia à penicilina tem maior probabilidade de receber antibióticos de largo espectro. Estes eliminam muitos tipos de bactérias, incluindo as benéficas, o que facilita a sobrevivência e a disseminação de bactérias resistentes. Este uso excessivo acelera o desenvolvimento de resistência aos antibióticos. Para além disso, os antibióticos de largo espectro podem ser menos eficazes e, muitas vezes, mais caros.
Porque é que há discrepância?
É comum que, em crianças, se atribua uma "alergia" a antibióticos quando surge uma reação como uma erupção cutânea após a toma. No entanto, as erupções são frequentes durante infeções na infância, e muitos vírus e doenças provocam, por si só, manchas na pele. Se a criança estiver a tomar um antibiótico nessa altura, pode ficar marcada como alérgica, apesar de a erupção poder ter sido causada pela própria doença.
Há também efeitos indesejáveis como náuseas, diarreia ou dores de cabeça que podem ocorrer com antibióticos, mas que nem sempre significam alergia. Estas reações comuns tendem a desaparecer sozinhas ou podem ser controladas. Um médico ou farmacêutico pode explicar estratégias para reduzir estes efeitos.
Muitas pessoas assumem igualmente que a alergia à penicilina "passa na família", mas o facto de ter um familiar com alergia não significa que também a tenha - não é hereditária.
Por fim, cerca de 80% dos doentes com uma alergia verdadeira à penicilina deixam de a ter ao fim de aproximadamente 10 anos. Ou seja, mesmo que tenha sido alérgico(a) no passado, é possível que já não seja, dependendo de quando aconteceu a reação.
Porque é que importa ter (ou não) alergia à penicilina?
Acreditar que é alérgico(a) à penicilina quando não é pode prejudicar a sua saúde. Desde logo, aumenta a probabilidade de lhe serem prescritos antibióticos mais fortes e de largo espectro, que nem sempre são a melhor escolha e podem causar mais efeitos secundários. Também pode ter maior risco de desenvolver uma infeção após cirurgia e de ficar mais tempo no hospital quando é internado(a) por uma infeção. Além disso, os custos médicos podem subir, por recorrer a medicamentos mais caros.
A penicilina e antibióticos muito semelhantes são, muitas vezes, as melhores opções de que os médicos dispõem para tratar várias infeções. Se não houver uma alergia real, esclarecê-lo pode abrir caminho a tratamentos mais seguros, mais eficazes e mais acessíveis.
Como posso saber se sou mesmo alérgico(a) à penicilina?
O primeiro passo é falar com um profissional de saúde, como um médico ou um farmacêutico. Os sinais de alergia podem ir de uma erupção ligeira e autolimitada até inchaço facial importante e dificuldade em respirar. É possível que lhe façam várias perguntas, por exemplo: o que aconteceu exatamente, quanto tempo após iniciar o antibiótico surgiu a reação, se foi necessário tratamento e se, desde então, tomou medicamentos semelhantes.
Estas perguntas ajudam a separar uma alergia verdadeira de uma reação não alérgica. Em muitos casos, esta entrevista é suficiente para concluir que não existe alergia. Ainda assim, por vezes, recomenda-se fazer testes adicionais.
Uma forma de verificar se há mesmo alergia é o teste cutâneo à penicilina, que inclui pequenas picadas na pele e pequenas injeções sob a pele. Estes testes usam componentes relacionados com a penicilina para avaliar, de forma segura, uma alergia verdadeira. Se o teste cutâneo não provocar reação, o passo seguinte costuma ser tomar uma dose pequena de amoxicilina sob vigilância no consultório, apenas para garantir que é seguro.
Um estudo publicado em 2023 mostrou que, em muitos casos, também pode ser seguro dispensar o teste cutâneo e avançar diretamente para a pequena dose de teste. Neste método, os doentes tomam uma dose baixa de amoxicilina e ficam em observação durante cerca de 30 minutos para verificar se ocorre alguma reação.
Com as perguntas certas, testes adequados e a experiência clínica necessária, muitas pessoas podem voltar a ter a penicilina como opção para tratar infeções comuns com segurança.
Elizabeth W. Covington, Professora Clínica Associada de Farmácia, Auburn University
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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